
Em fevereiro, escrevi neste espaço sobre o método Kassab.
Minha análise partia de uma constatação: Gilberto Kassab nunca precisou ser popular para acumular poder.
Enquanto boa parte da política brasileira se concentrava em discursos, personalidades e disputas públicas, Kassab construía estrutura. Prefeitos, vereadores, bancadas, governos estaduais e alianças.
Seu poder não estava no palanque, mas na engrenagem.
Foi assim que transformou o PSD em uma das principais forças políticas do país: sem grandes amarras ideológicas e com enorme capacidade de ocupação institucional.
Seis meses depois, algo aparentemente mudou. (Será?)
Kassab resolveu falar.
Às vésperas do início oficial da campanha, afirmou que o Centrão estaria com Lula, declarou que Flávio Bolsonaro teria "chance zero" de vencer e previu que sua candidatura perderia força durante a campanha.
O operador silencioso subiu ao palanque. Mas talvez o método não tenha mudado.
Kassab continua sendo Kassab e sua fala também é ação política. Ele não observa essa eleição de fora. É presidente do PSD e candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado.
Quando declara que um dos principais candidatos da oposição não pode vencer Lula, não é um observador quem fala. É um interessado. Por isso, pouco importa saber se Kassab realmente acredita que Flávio tem "chance zero".
O que está na cabeça dele é: O que eu, Kassab, ganho se outras pessoas começarem a acreditar nisso?
Eis que este é o momento do seu método: Viabilidade se constrói e ele sabe disso.
Antes do voto, dirigentes partidários, prefeitos, parlamentares, empresários e lideranças políticas precisam decidir onde colocar estrutura, influência e capital político.
E ninguém gosta de embarcar em um projeto considerado derrotado.
Quando um candidato passa a ser percebido como inviável, alianças ficam mais difíceis, lideranças procuram alternativas e apoios migram.
Portanto, decretar que alguém tem "chance zero" pode ser uma tentativa de construir percepção.
A lógica é simples:
Se Flávio não pode vencer Lula, a oposição precisa de outro candidato. Se precisa de outro candidato, alguém terá de ocupar esse espaço. E Kassab está justamente na chapa de quem pretende fazê-lo. Não é preciso imaginar conspirações. Basta observar os incentivos.
Pesquisas recentes continuam mostrando uma disputa competitiva em eventual segundo turno entre Lula e Flávio.
Kassab sabe disso. E então a "chance zero" parece mais uma mensagem para quem precisa decidir agora onde estará em outubro.
Em fevereiro, descrevi um Kassab que construía poder enquanto outros disputavam narrativa.
Seu método era ocupar território, eleger prefeitos e vereadores, construir bancadas e transformar presença institucional em capacidade de negociação.
Tudo isso permaneceu.
Aparentemente esse patrimônio é justamente o que permite Kassab disputar agora também a narrativa. Depois de anos construindo a engrenagem, chegou a hora de usufruir dela.
Antes, Kassab acumulava poder para ser procurado pelos candidatos. Agora está dentro de uma candidatura presidencial e precisa transformar esse poder em votos, alianças e percepção de viabilidade.
Enfraquecer a percepção de um adversário, portanto, não representa necessariamente uma mudança de método, mas uma evolução dele.
Kassab sendo Kassab
Em fevereiro, escrevi que o método Kassab expunha uma verdade desconfortável: poder se constrói com estrutura, base e continuidade.
Enquanto operadores profissionais ocupavam espaços, parte da direita ainda tratava negociação como traição, articulação como "velha política" e estratégia como pecado.
Minha conclusão era que a direita começava a aprender.
Seis meses depois, Kassab oferece outra aula. Agora, sobre percepção.
Se conseguir convencer o sistema político de que determinado candidato não pode vencer, talvez consiga fazer lideranças, partidos e apoios se movimentarem antes das urnas.
Não sabemos se funcionará. Particularmente, não acredito que funcione. Mas tratar suas declarações como simples opinião eleitoral seria ignorar justamente o que sua trajetória ensina.
Kassab joga esse jogo há décadas.
Seis meses atrás, escrevi sobre a eficiência de seu método. Hoje, não tenho dúvida de que ele continua tentando aplicá-lo.
A pergunta que faço agora é se o jogo de Kassab ainda está funcionando.