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O VICE DE FLÁVIO PRECISA TRAZER VOTOS OU CAPACIDADE DE GOVERNO?

A ESCOLHA DEVE PREENCHER A LACUNA QUE AINDA PERMANECE ABERTA NA CHAPA

Alana Figueiredo
Por: Alana Figueiredo
29/07/2026 às 10h30
O VICE DE FLÁVIO PRECISA TRAZER VOTOS OU CAPACIDADE DE GOVERNO?
Imagem gerada por IA

Muita gente foi à convenção do PL esperando que Flávio Bolsonaro anunciasse quem ocupará o cargo de vice em sua chapa presidencial, mas o anúncio não veio.

Flávio foi oficialmente confirmado como candidato à Presidência, mas ainda segue sem uma composição definida. O prazo das convenções partidárias vai até 5 de agosto, e a ausência de uma vice mantém aberta uma das decisões mais importantes da campanha. (AP News)

A discussão tem se concentrado principalmente na possibilidade de a escolhida ser uma mulher.

A justificativa é que Lula mantém vantagem relevante entre as eleitoras, e Flávio precisa reduzir essa diferença. A própria campanha já sinalizou a busca por um nome feminino como forma de ampliar o diálogo com um público que historicamente apresenta maior resistência ao bolsonarismo. (Reuters)

Mas escolher uma mulher apenas porque ela é mulher pode ser uma solução superficial para um problema bem mais complexo.

Eleitoras não transferem automaticamente seus votos para uma chapa porque há uma candidata feminina nela. Elas consideram identidade, confiança, religião, segurança, economia e percepção pessoal sobre os candidatos.

A presença feminina pode ajudar muito na comunicação. Sozinha, porém, não cria vínculo nem resolve rejeição.

Além disso, houve uma mudança importante no cenário.

Michelle e Flávio Bolsonaro se reconciliaram publicamente. Depois da crise entre os dois, Michelle aceitou o pedido de desculpas e enviou uma manifestação de apoio à convenção do PL. Sua atuação na campanha ainda pode ser mais comedida do que Flávio gostaria, mas ela continua sendo uma figura de grande influência entre mulheres conservadoras e eleitoras evangélicas. (AP News)

Isso altera a função da vice na campanha de Flávio.

Se Michelle já pode ajudar a recompor o vínculo com o eleitorado feminino, cristão e conservador, a chapa precisa avaliar se vale a pena escolher outra pessoa para desempenhar praticamente o mesmo papel.

Talvez a vice deva preencher uma lacuna diferente.

Flávio ainda enfrenta dificuldade para ampliar alianças além do núcleo bolsonarista. Sua candidatura chegou à convenção sem apoio consolidado dos principais partidos de centro e ainda precisa convencer parte do eleitorado de que representa não apenas continuidade política, mas capacidade real de governo. (AP News)

É nesse ponto que um perfil executor pode ser mais valioso do que uma escolha puramente identitária.

Acenar ao centro não significa necessariamente escolher alguém sem posições políticas claras. Significa apresentar uma pessoa capaz de transmitir previsibilidade, competência administrativa, segurança econômica e disposição para transformar propostas em gestão.

Flávio já representa mobilização política, confronto ideológico e continuidade do legado de Jair Bolsonaro.

Sua vice poderia representar execução.

Uma composição desse tipo ajudaria a responder a uma dúvida que ainda existe fora da base mais fiel: quem, nessa chapa, demonstra capacidade para organizar uma equipe, administrar conflitos, dialogar com setores produtivos e conduzir a máquina pública?

Esse é um dos motivos pelos quais o nome de Daniella Marques desperta interesse.

Ex-presidente da Caixa Econômica Federal e integrante da equipe econômica do governo Bolsonaro, ela reúne experiência executiva, trânsito no setor financeiro e associação com a agenda liberal de Paulo Guedes.

Sua principal credencial não seria apenas ser mulher, mas ter administrado uma das maiores instituições financeiras do país.

Uma composição com Daniella transmitiria uma imagem de competência técnica, responsabilidade fiscal e profissionalização da gestão. Também permitiria que a chapa reunisse duas mensagens ao mesmo tempo: representatividade feminina e capacidade executiva.

Obviamente a escolha também abriria novas frentes de ataque, com certeza a esquerda tentará apresentá-la como representante do mercado financeiro, distante dos problemas da população e vinculada a uma agenda econômica que seus adversários classificariam como elitista e opressiva.

Mas a esquerda encontrará uma narrativa contra qualquer nome.

Se a vice for conservadora, será chamada de radical. Se for moderada, dirão que Flávio abandonou a própria base. Se vier do mercado, será apresentada como representante da elite. Se tiver forte apelo religioso, será tratada como fundamentalista. Se for mulher, tentarão reduzi-la a uma escolha calculada para melhorar a imagem da chapa.

O vice ainda não foi anunciado. O enquadramento da esquerda, porém, já está pronto, aguardando o anúncio para o ataque. Talvez por isso Flávio ainda não tenha anunciado sua decisão. Flávio está ganhando tempo para adiar os ataques que certamente virão. E quem ganha tempo, ganha.

Há ainda outra estratégia em curso.

A esquerda não precisa atacar com a mesma intensidade todos os candidatos da direita no primeiro turno. Politicamente, pode ser mais útil concentrar o desgaste em Flávio e preservar alguma interlocução com os demais eleitorados do espectro de direita.

O pensamento é que quanto mais hostilidade Lula criar contra todos os nomes da direita, mais difícil será buscar os votos desses grupos num eventual segundo turno.

Por isso, a tendência é que Flávio seja tratado como o adversário principal, enquanto outros candidatos recebam críticas mais seletivas.

A escolha do vice precisa considerar esse cenário.

A chapa precisa de alguém capaz de ampliar sua credibilidade, suportar uma campanha agressiva e oferecer algo que Flávio ainda não entrega sozinho.

Michelle já ajuda a falar com mulheres cristãs e conservadoras. O vice deveria preencher outra lacuna.

Flávio precisa mostrar que sabe disputar uma eleição. Mas sua chapa também precisa provar que sabe governar.

A escolha correta será aquela que acrescenta à chapa uma qualidade que esses ataques não conseguem apagar.

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Alana Figueiredo
Engenheira com MBA em Gestão de Projetos, possui experiência no setor de agrárias e se destaca por suas habilidades de escrita e comunicação. Ao longo de sua carreira, desenvolveu um profundo interesse por temas culturais e políticos, que agora compartilha como colunista. Tem visão crítica e informada, sempre com um olhar atento às dinâmicas sociais e econômicas que moldam a sociedade.
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