
Gilberto Kassab um fenômeno de impopularidade, mas é um fenômeno de método.
Chegou à Prefeitura de São Paulo em 2006, assumindo o cargo após a saída de José Serra, e governou até 2012 com um perfil administrativo, pragmático e pouco afeito a discursos morais. Kassab governou com maioria legislativa, base organizada e capacidade de articulação constante. Seu poder nunca esteve no palanque, mas na engrenagem.
Depois da prefeitura, deixou claro que não pretendia ser mais um nome dependente de eleição majoritária. Fundou o PSD, um partido desenhado para crescer sem amarras ideológicas rígidas, ocupar espaço institucional e negociar poder onde ele realmente se decide: nas bases municipais e nos parlamentos.
Desde então, Kassab circula com naturalidade por governos de campos distintos. Ocupou ministérios, secretarias estratégicas e tornou-se um dos principais articuladores do poder nacional. Seu papel lembra o de Michel Temer: conhecer profundamente o funcionamento do Estado, das casas legislativas e das alianças possíveis. Nenhum dos dois depende de carisma. Ambos dependem de estrutura.
Desde as eleições municipais de 2024, Kassab executa um movimento clássico e eficiente.
Elege prefeitos e vereadores. Os prefeitos garantem capilaridade territorial, os vereadores organizam base permanente e, em consequência, o seu partido ganha musculatura local (o mesmo que um fundo partidário bem gordo).
Quem controla o município controla a engrenagem política cotidiana. Governadores e presidenciáveis passam a negociar com quem domina essa base. Kassab entende isso como poucos. Enquanto muitos disputam narrativa, ele organiza dependência institucional.
Esse método funciona porque poder não se constrói em rede social, mas em território.
Aqui mora o problema — e o incômodo.
Uma parte da direita brasileira decidiu transformar política em catecismo. Negociação virou traição. Articulação virou “velha política”. Estratégia virou pecado. O resultado foi previsível: enquanto a direita discute pureza, operadores profissionais ocuparam o espaço vazio.
Kassab tem vencido nas suas estratégias porque encontrou um campo adversário mais preocupado em sinalizar virtude do que em disputar espaços a serem ocupados.
Movimentos recentes mostram que a direita inicia uma transição importante: sair da idolatria e entrar na ação. Lideranças como Ana Campagnolo e Nikolas Ferreira vem construindo base regional, treinado o eleitorado, produzido sentimento de pertencimento e mobilizado pessoas fora da lógica da dependência permanente de um único nome.
Porém isso, por si só, não elimina o poder do Kassab. Mas começa a furar um sistema que sempre contou com a passividade moral da direita.
O método Kassab escancara uma verdade desconfortável: poder se constrói com estrutura, base e continuidade. Valores sem estratégia viram retórica. Estratégia sem valores vira sociopatia.
O embate que se desenha não é entre ideologias, mas entre quem ocupa o sistema e quem aprende a operá-lo.
Kassab joga esse jogo há décadas. A direita começou, finalmente, a aprender.
E aprender a jogar é sempre o primeiro passo para deixar de apanhar.