
Ele não lhe tocará na pele, primeiro.
Tocará no âmago onde grassa o inefável.
Não com mãos de carne, percebei, mas com aquele toque vibracional, etéreo, telepático que a faz lembrar-se dela antes mesmo dela se lembrar de si mesma.
Na catedral escura do seu ser, onde antigas feridas, porventura, ainda zumbem como hinos esquecidos, ela passa, pois, a sentir abrigar-se uma presença única, apaziguadora e inebriante.
Sem exigências.
Sem reivindicação.
Sem contrapartidas.
Apenas por dádiva, entrega, doação, puro amor…
É como a luz ao encontrar um vaso rachado, e não o quebrar ainda mais, preenchendo a fissura até que a própria fenda, miraculosamente, se feche e se torne inquebrantável…
Ela sente-o como um lento desabrochar — não do corpo, mas dos aposentos ocultos da alma.
Portas que ela trancara por traumas, desapontamento, mágoa, vergonha, descrédito, angústia, por más memórias, após um longo inverno de invisibilidade, passam a abrir-se sem chave.
Ele não adentra, assim, como um “conquistador”, ressalve-se.
Entra como, in persona, um “desbloqueador”.
Neste tipo de toque não há posse.
Tão só o regresso a um harmonioso estado límbico e fusional.
Dois num só.
A alma dela, que deambulara por vidas de quase-amor e espelhos quebradiços, compreende, por fim, e, subitamente, a diferença entre ser só alvo de um esporádico e insubstancial desejo e ser devotamente valorada.
Entre ser abraçada e ser acolhida na frequência onde o espírito e a matéria cessam a sua primal disputa.
Este é o mistério sagrado da misticidade entre o genuíno amor de um homem por uma mulher, a saber:
Que a intimidade mais profunda não é de forma, mas de essência.
Que quando o princípio masculino — o cuidado eterno que o atravessa — toca a alma feminina, sem “intenções outras” somente, agitar-se-á algo mais antigo que o tempo.
O jardim interior dela passa a florescer no inverno.
O templo interior acende as suas próprias lâmpadas.
Ela, em vez de se enquistar, torna-se vasta, larga, ampla e profunda.
Porque, claro está, a forma como ele tocou sua alma é a forma como o Infinito toca o finito e lhe sussurra:
“Nunca estiveste separada. Jamais o olvides”.
E neste enlevo ela já não é apenas amada.
Ela é lembrada e venerada, a todo o instante, e passa a senti-lo.
A mais antiga prece passa a ser atendida como que num toque de mágica.
A alma dela, enfim, expele e exorta plenitude…
Eco