
Na pesquisa Gerp, Flávio Bolsonaro tem 47% contra 42% de Lula em um eventual segundo turno. Na pergunta sobre quem está mais preparado para governar, o equilíbrio se repete: 44% a 43%. Mas quando o eleitor diz quem acredita que vencerá, o quadro se inverte: Lula tem 52%, Flávio, 36%.
A distância entre as duas respostas não é um erro de pesquisa. É a diferença entre preferência e percepção. Ao responder em quem pretende votar, o eleitor fala da própria decisão; ao responder quem vai ganhar, tenta antecipar o comportamento dos outros. É perfeitamente possível pensar "voto em A, mas acho que B será eleito", e é exatamente o que uma parcela expressiva do eleitorado de Flávio parece estar fazendo.
A Gerp mede três dimensões da candidatura: voto, preparo e expectativa de vitória. Nas duas primeiras, Flávio é competitivo; na terceira, ainda não. A consequência ultrapassa a pesquisa. Antes de a urna decidir, prefeitos, parlamentares, lideranças locais, empresários e partidos precisam escolher onde colocar tempo, dinheiro e influência, e ninguém embarca de bom grado num projeto percebido como derrotado. Quanto mais um nome parece capaz de vencer, menor o risco de apoiá-lo; quanto mais inviável parece, maior o incentivo para que os apoios migrem. A percepção de viabilidade, portanto, interfere na viabilidade real.
É esse mecanismo que expliquei na semana passada ao analisar a declaração de Gilberto Kassab de que Flávio teria "chance zero". Kassab não é comentarista; é presidente do PSD e compõe chapa adversária. Ao decretar a inviabilidade de um concorrente, sua fala produz efeito político: tenta convencer o sistema de que aquele espaço está vago.
A nova pesquisa não sustenta eleitoralmente a "chance zero". Flávio está numericamente à frente de Lula no segundo turno, tecnicamente empatado no primeiro, e na série da própria Gerp desde junho oscilou entre 42% e 47%. Mas o levantamento revela por que a narrativa encontra terreno: o problema não está na existência da candidatura nem na percepção de capacidade de governar, e sim na imagem do candidato no Palácio do Planalto.
O dado mais interessante aparece justamente num segmento em que ele vence com folga. Entre eleitores com renda familiar de dois a cinco salários-mínimos, Flávio tem 57% contra 33% no segundo turno. Mas, quando perguntados sobre quem vencerá, Lula aparece com 48% e Flávio com 42%. Flávio já conquistou votos de quem não o enxerga como presidente.
Isso muda a tarefa da campanha. Não basta conquistar mais eleitores, embora precise. É preciso transformar competitividade em percepção de competitividade, e isso não se resolve repetindo que as pesquisas mostram vantagem. Viabilidade é percebida quando uma candidatura cresce, soma apoios, ocupa território, apresenta equipe e produz a sensação de que pode chegar ao governo.
A Gerp tem metodologia própria, ouviu 2.400 pessoas entre 21 e 25 de agosto e trabalha com margem de dois pontos; outros institutos podem mostrar cenários diferentes. O valor do levantamento não está em proclamar vencedor, mas em revelar uma dinâmica: Flávio já conquistou votos de pessoas que ainda não acreditam que ele possa vencer. A campanha que está ocorrendo agora terá de mostrar se consegue transformar voto em percepção de vitória.