
Em 2020, Anthony Fauci falou e o mundo parou para ouvir.
Suas declarações orientaram governos, legitimaram restrições e ajudaram a definir o que podia ou não ser discutido sobre a pandemia.
Porém, diante do Senado americano, Fauci escolheu o silêncio.
Em 29 de julho, o ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas compareceu a uma audiência sobre sua atuação durante a pandemia e sobre as origens da Covid-19. Diante das perguntas dos senadores, invocou repetidamente a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que protege o cidadão contra a autoincriminação.
É claro que ele tem o direito constitucional de permanecer em silêncio. Da mesma forma, o público tem o direito de perguntar por que uma das autoridades mais influentes daquele período considera arriscado responder.
Durante a pandemia, não houve espaço semelhante para dúvida ou discordância.
A cobertura ocupava os jornais da manhã à noite. Havia contadores permanentes de mortos, imagens de hospitais, previsões alarmantes e pedidos incessantes para que ninguém saísse de casa.
Quem não usava máscara era tratado como irresponsável ou ameaça coletiva. Tossir ou espirrar em público despertava reprovação. Encontrar parentes virou ato de desobediência. Trabalhar, ir à igreja, manter uma escola funcionando ou questionar uma regra passou a exigir justificativa moral.
A imprensa ampliou o medo, legitimou excessos e ajudou a transformar divergências legítimas em desvios morais.
Fauci deixou de ser apresentado apenas como médico ou autoridade sanitária e passou a representar, simbolicamente, a própria ciência.
Criticá-lo era tratado como ataque ao conhecimento científico. Questionar suas decisões era confundido com negar a existência do vírus. Quantos foram chamados de negacionistas por apenas perguntarem sobre a eficácia das vacinas? Levantar dúvidas sobre a origem da Covid-19 levou muitos a serem rotulados como conspiracionistas.
Agora sabemos que, nos primeiros meses da pandemia, Fauci recebeu alertas sobre a possibilidade de relação entre o vírus e pesquisas realizadas em laboratório. Seus diários recentemente divulgados registram discussões privadas sobre a origem do vírus, sua atuação política e sua relação com a imprensa.
O debate sobre a origem da Covid-19 continua.
A hipótese de transmissão natural continua sendo defendida, enquanto a possibilidade de vazamento de laboratório permanece considerada plausível por setores da inteligência americana.
O problema é que uma hipótese que ainda hoje permanece em debate foi tratada durante muito tempo como simples desinformação. E a imprensa não hesitou em rotular qualquer questionamento como “fake news”.
Enquanto havia dúvidas nos bastidores, o público recebia certezas.
Essa responsabilidade se torna ainda mais importante diante do indiciamento de David Morens, antigo assessor sênior de Fauci no NIAID, acusado de ocultar, destruir e falsificar registros federais relacionados às investigações sobre a pandemia e a origem da Covid-19.
A acusação contra Morens demonstra que a suspeita de ocultação de informações não nasceu apenas em publicações anônimas na internet.
Ainda assim, a repercussão atual é pequena diante do poder que a imprensa atribuiu a Fauci durante a pandemia.
Quando ele defendia restrições, suas declarações atravessavam o planeta. Agora, quando se recusa a responder sobre aquele período, o volume diminui. Os gritos foram reduzidos a cochichos no pé do ouvido.
O episódio foi noticiado. Não se pode afirmar que tenha sido completamente ocultado. Diante da dimensão do caso, seria razoável esperar um escândalo de repercussão mundial. A intensidade, a repetição e o tom da cobertura, porém, são claramente diferentes.
Durante a pandemia, a imprensa não apenas informou decisões sanitárias. Participou de sua legitimação social. Ajudou a estabelecer quais autoridades mereciam confiança, quais perguntas eram aceitáveis e quem deveria ser silenciado.
Por isso, não pode agora se comportar como observadora distante.
Os mesmos veículos que ampliaram a autoridade de Fauci deveriam demonstrar interesse semelhante pelas dúvidas sobre sua conduta e pelas consequências das decisões tomadas naquele período: crianças prejudicadas pelo fechamento de escolas, pequenos negócios destruídos, famílias impedidas de acompanhar seus mortos e pessoas submetidas a um ambiente permanente de medo e culpa.
Trata-se de reconhecer que emergência não elimina responsabilidade.
Ciência depende de dúvida, revisão, confronto de hipóteses e correção de erros. Quando “confie na ciência” passa a significar “não faça perguntas”, já não estamos falando apenas de ciência. Estamos falando de poder.
Fauci pode recorrer ao direito constitucional ao silêncio.
A imprensa, porém, ainda deve explicações.
Durante anos, pediu que todos obedecessem. Agora, diante das perguntas que ficaram sem resposta, cochicha.
O silêncio de Fauci grita sobre a pandemia, mas o silêncio da mídia grita mais alto.