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A DANÇA DAS CADEIRAS DEPOIS DAS URNAS

NA REORGANIZAÇÃO DO CONGRESSO, O DESAFIO SERÁ TRANSFORMAR VOTOS EM PODER SEM TRANSFORMAR NEGOCIAÇÃO EM ABANDONO DE COMPROMISSOS

Alana Figueiredo
Por: Alana Figueiredo
03/11/2026 às 10h03
A DANÇA DAS CADEIRAS DEPOIS DAS URNAS
Imagem gerada por IA

As urnas foram fechadas em 25 de outubro. No dia seguinte, outra eleição começou.

Desta vez, não houve santinhos, comícios ou horário eleitoral. A disputa acontece nos gabinetes, nas lideranças partidárias e nas conversas que definirão quem comandará a Câmara e o Senado a partir de fevereiro.

É nesse intervalo entre a vontade expressa pelo eleitor e a distribuição efetiva do poder que a política da realidade se revela.

O PL saiu das eleições com a maior bancada da Câmara, 121 deputados, e com a maior bancada do Senado, projetada pela própria Casa em 29 senadores. Ainda assim, nenhum desses números garante o comando das instituições. Na Câmara, o bloco de centro formado por União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, PSDB-Cidadania e Podemos decidiu permanecer unido na próxima legislatura e declarou apoio à recondução de Hugo Motta. Esse grupo terá cerca de 240 deputados.

Essa é a primeira lição do pós-eleição: ser o maior partido não significa, necessariamente, ser a maior força.

Valdemar Costa Neto sabe disso. A ala do PL ligada a ele passou a defender uma negociação com Hugo Motta justamente para evitar que a maior bancada da Câmara termine isolada da Mesa Diretora e das principais comissões. O partido reúne sua bancada nesta terça-feira, 3 de novembro, para decidir o caminho. Até o fechamento deste artigo, portanto, não existe decisão formal.

O dilema é evidente.

Hugo Motta foi apoiado pelo PT e já reúne partidos de centro em torno de sua reeleição. O Republicanos, presidido por Marcos Pereira, também mantém sua candidatura como prioridade. Para o PL, aderir a essa composição significaria negociar com uma liderança respaldada por forças governistas depois de uma eleição em que se apresentou como principal oposição a Lula. Não aderir, por outro lado, pode significar assistir de fora à distribuição dos espaços que organizam o funcionamento real da Câmara.

Essa é a lógica do Legislativo.

Arthur Lira construiu boa parte de sua influência justamente dominando esse tipo de articulação. Mesmo fora da presidência da Câmara, continua participando de negociações relevantes e é citado como peça importante nos arranjos para 2027. Sua força ajuda a explicar por que, no Congresso, influência raramente desaparece com a troca de uma cadeira: ela migra para blocos, relações, votos e capacidade de organizar maiorias.

Gilberto Kassab opera por lógica semelhante, embora através de outra estrutura. O PSD perdeu espaço no Senado, mas preservou presença importante na Câmara, nos estados e principalmente nos municípios. Kassab já afirmou que o partido poderá apoiar medidas do novo governo Lula sem condicionar esses votos à ocupação de cargos. Pode-se concordar ou não com esse posicionamento, mas ele confirma o método: conservar autonomia suficiente para negociar com diferentes polos sem depender inteiramente de nenhum deles.

No Senado, a disputa é diferente — e talvez mais importante para a oposição (nós).

Rogério Marinho será apresentado pelo PL como candidato à presidência da Casa numa reunião marcada para 4 de novembro. O Novo deve participar, e o partido negocia também com senadores de PP, União Brasil, Republicanos e PSDB. Do outro lado, Davi Alcolumbre trabalha pela reeleição e afirma ter votos suficientes para permanecer no cargo. Tereza Cristina mantém, neste momento, candidatura própria, tentando ocupar o espaço entre aqueles que resistem tanto a Marinho quanto a Alcolumbre. Nada disso está definido: o voto para a presidência do Senado é secreto e as contas divulgadas pelas campanhas se sobrepõem.

A presidência do Senado terá peso especial porque algumas das principais promessas da oposição dependem diretamente da pauta da Casa.

Os pedidos de responsabilização de ministros do Supremo são o exemplo mais evidente. Pela Constituição e pela Lei 1.079, compete ao Senado processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade. A simples existência de um pedido, entretanto, não significa que haja fundamento jurídico suficiente nem que ele será automaticamente processado. A presidência da Casa tem papel central no encaminhamento dessas petições, e uma eventual condenação exige voto de dois terços dos senadores.

É por isso que a disputa pelo Senado não pode ser reduzida a nomes. Ela envolve a definição de quais temas terão possibilidade real de avançar.

Isso também vale para a agenda econômica.

Em 2027 começa uma etapa decisiva da reforma tributária. A CBS substituirá PIS e Cofins, o IBS seguirá em fase de transição e o Imposto Seletivo passará a vigorar. O TCU calculou em 11,3% a alíquota de referência da CBS para 2027, que ainda deverá ser apreciada pelo Senado. Para o sistema completo de IBS e CBS, estimativas oficiais anteriores trabalharam com uma alíquota-padrão combinada entre 25,45% e 27%, dependendo das hipóteses adotadas.

A oposição pressionará por contenção de despesas, previsibilidade fiscal e redução do peso tributário. Mas aqui também haverá um teste de seriedade. Cortar gastos não reduz automaticamente a alíquota do IBS ou da CBS: a calibragem depende de regras de arrecadação, regimes diferenciados, base tributável e decisões legais específicas. O desafio será transformar o discurso fiscal em propostas concretas que possam ser negociadas e aprovadas.

E é justamente aí que começa o problema político mais difícil da próxima legislatura.

Os eleitos precisarão conciliar representatividade, governabilidade e interesse político.

Negociar não é, por definição, trair o eleitor. Um Parlamento existe justamente para produzir maiorias entre grupos diferentes. A questão está no conteúdo da negociação.

Se um partido abre mão da presidência de uma Casa para conquistar comissões estratégicas, isso pode ser pragmatismo legítimo. Se abandona compromissos centrais apenas para preservar espaço, a avaliação muda. Se aceita apoiar uma liderança adversária em troca de capacidade real de aprovar sua agenda, terá de demonstrar o resultado dessa escolha.

Existe ainda outro risco: o governo pode colher os dividendos políticos de medidas construídas com participação decisiva da oposição. Em outras palavras: a oposição vai trabalhar e fazer coisas positivas para o país, mas é o governo de situação que vai colher os bons frutos.

Se parlamentares de oposição ajudarem a corrigir distorções tributárias, conter despesas ou aprovar medidas populares, o Executivo naturalmente tentará incorporá-las à narrativa de seu governo. Recusar qualquer negociação para evitar esse risco seria irresponsável. Entregar resultados sem saber comunicar quem os produziu também seria ingenuidade política.

A eleição definiu quem ocupará as cadeiras e o mês de novembro começa a mostrar quem saberá usá-las.

Valdemar, Kassab, Lira, Marcos Pereira, Hugo Motta, Rogério Marinho e Davi Alcolumbre representam métodos diferentes de transformar representação em influência. Lula, por sua vez, dependerá dessas negociações para converter sua vitória presidencial em capacidade de governar.

Em fevereiro, saberemos quem presidirá as Casas. Mas a pergunta mais importante continuará aberta.

Na dança das cadeiras do Congresso, até onde os acordos necessários para exercer o poder serão compatíveis com os compromissos assumidos para conquistá-lo?

A próxima legislatura será julgada pelo que decidir fazer depois de sentar-se nas cadeiras conquistadas.

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Alana Figueiredo
Alana Figueiredo
Engenheira com MBA em Gestão de Projetos, possui experiência no setor de agrárias e se destaca por suas habilidades de escrita e comunicação. Ao longo de sua carreira, desenvolveu um profundo interesse por temas culturais e políticos, que agora compartilha como colunista. Tem visão crítica e informada, sempre com um olhar atento às dinâmicas sociais e econômicas que moldam a sociedade.
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