
Agora, bem cedo, minha esposa foi fazer uma ultrassonografia em um hospital público aqui em São Paulo. Ao contrário dos políticos (e por falta de condições para pagar um plano de saúde), usamos o SUS. Além da espera de uma hora e do desleixo no tratamento dispensado às pessoas, um ultrassom que, em convênios, não demorava menos de 20 minutos foi feito em apenas 2 minutos, sem que o médico tivesse se dignado a dar um bom-dia ou sequer olhar para a cara da minha mulher. Mas a questão aqui não é essa.
Enquanto esperava na recepção para ser chamada para o atendimento, foi inevitável ouvir as conversas das pessoas que também estavam esperando para ser atendidas. É aí que a coisa fica interessante e que essa amostragem talvez ajude a explicar o que aconteceu na eleição de ontem, com a derrota de Flávio Bolsonaro.
Coisas que ela ouviu:
“Bolsonarismo é uma religião. Aquela mulher do Bolsonaro ganhou pra Senadora e nunca fez nada na vida.”
“O que quebrou o Flávio foi o dinheiro do banco Master.”
“Agora o Flávio vai ter que morrer!”
“Ele ia fazer pior que o Collor!”
“Ele disse que ele ia pegar o dinheiro do povo!”
“Não votei no Flávio porque ele ia acabar com a aposentadoria da gente.”
“Não votei no Flávio porque ele é amigo do Trump e ia dar pra ele nosso petróleo e nossas terras raras. Não viu o que ele fez com o Maduro? Só prendeu o Maduro pra pegar o petróleo da Venezuela!”
“Aquele irmão dele que tá nos Estados Unidos vai voltar pro Brasil acorrentado!”
“O Lula falou que vai prender o Flávio em janeiro!”
“O Flávio é preconceituoso, chamou o Lula de nove dedos!”
“O Lula trabalhou a vida toda, o Flávio nunca trabalhou na vida!”
E, para coroar, o comentário derradeiro, feito enquanto riam de uma imagem do Flávio chorando:
“O Rei do Brasil é Lula mesmo!”
Nas frases relatadas acima, fica fácil perceber a ignorância e o medo vinculados à maneira como as pessoas são levadas a tomar decisões. E, quando digo ignorância, não estou distinguindo classes sociais. Afinal, Lula foi muito bem votado em áreas com grande concentração de renda, assim como Flávio recebeu muitos votos em regiões de população mais simples. A ignorância, portanto, além da falta de entendimento em si, pode estar relacionada à ausência de verificação das informações recebidas por meio do que é dito em cada uma das campanhas.
Quando, porém, entra o fator medo, este, sim, pode ter mais influência sobre a população mais simples, que depende dos benefícios do governo, o que se torna mais sério quando as informações não são verificadas pelos eleitores. Presumo que seja natural que as pessoas tenham medo de perder aposentadorias, pensões ou de ter seu dinheiro confiscado, mesmo que isso não corresponda à realidade nem tenha sido proposto por Flávio Bolsonaro.
O grave, no entanto, é que esse medo foi alimentado pela campanha petista por meio de afirmações inverídicas e insinuações que falaram diretamente com o bolso dos eleitores, e não com suas mentes. Flávio é, de fato, amigo de Trump. O tema das terras raras tem sido fartamente abordado na mídia. Maduro realmente foi preso por Trump em uma ação espetaculosa de invasão ao território venezuelano pelos Estados Unidos. Além disso, o governo americano fechou um acordo para a exploração do petróleo venezuelano. E o próprio Lula disse, mais de uma vez, que Trump poderia invadir o Brasil.
Tudo isso dá margem a interpretações equivocadas por parte de pessoas que não têm noção de geopolítica e que não conseguem entender as diferenças territoriais e de poder de influência entre um Brasil continental e uma Venezuela que vivia (e ainda vive) sob uma ditadura sustentada pelo narcotráfico e por alianças com outras ditaduras e países produtores e exportadores de drogas, que têm exatamente os Estados Unidos como mercado para a venda de narcóticos. E isso vale tanto para pessoas de baixa quanto de alta renda.
Outro exemplo interessante, que muda a maneira de pensar, está no comentário: “Aquele irmão dele que tá nos Estados Unidos vai voltar pro Brasil acorrentado!”. Troque por “Aquele filho dele que tá na Espanha vai voltar pro Brasil acorrentado!” e me diga se não seria um comentário que poderia ser feito por quem quer punir os responsáveis pelo escândalo do INSS, que roubou dinheiro exatamente de quem tem medo de perder sua aposentadoria.
A eleição presidencial não foi decidida por motivos racionais. Este é um fato. A interferência de Cristiano Zanin, por mais motivos que possa gerar para a desconfiança geral, não pode ser vista como decisiva — a menos que, futuramente, possibilidades especulativas, como, por exemplo, a de mesários terem inserido votos que justificariam a redução das abstenções, venham a ser comprovadas. Neste momento, porém, não passam de especulação.
Se, nas eleições de 2022, o TSE, sob o comando de Alexandre de Moraes, teve um nível de ativismo nunca visto na história deste país, nestas eleições, a negligência, a leniência e a falta de atitudes pontuais contra abusos, mentiras e difamações foram tão decisivas quanto. A campanha petista abusou das mentiras e insinuações que causaram medo nos eleitores, especialmente entre o primeiro e o segundo turnos. Por outro lado, o STF tomou para si o ativismo, interferindo diversas vezes em decisões que caberiam apenas ao TSE, quase sempre favorecendo a campanha petista.
Um bom exemplo foi a reportagem do Jornal Nacional, que relacionou Flávio Bolsonaro à ação da Polícia Federal que encontrou uma sala-cofre no hangar pertencente a um advogado amigo de Flávio, citando-o como investigado e sócio do amigo e ainda mostrando imagens da sala-cofre e da máquina de contar dinheiro encontrada no local. A ação da Polícia Federal foi autorizada por Alexandre de Moraes, que, além disso, ainda pretendia realizar buscas e apreensões nos endereços de Flávio Bolsonaro, o que acabou não acontecendo. Mas não faltou uma forte divulgação, pela imprensa, dessa possibilidade.
Se houve fraude eleitoral, não me atrevo a atribuí-la às urnas, mas, sim, à campanha que considero a mais suja da história das eleições no Brasil, aliada à ignorância de um povo que continua pensando com o estômago e com o bolso, que pensa no hoje, no almoço de amanhã, sem se preocupar com o próximo mês, com o próximo ano e com o futuro de sua própria família — além dos jovens que não pensam no próprio futuro. Gente disposta a ignorar a corrupção comprovada, os escândalos do INSS, o envolvimento de integrantes do governo com o Banco Master e as declarações de Roberta Luchsinger, amiga e sócia de Lulinha, em troca da picanha barata que não recebeu e não receberá.
Lula fez diversas promessas que, agora eleito, não tem a menor obrigação de cumprir. Muitas dependerão da aprovação de um Congresso Nacional com viés de direita para serem implementadas, ao qual poderá atribuir a culpa caso não sejam aprovadas. Por outro lado, se não tivesse sido eleito, exigiria o cumprimento das promessas que fez e culparia a direita por não tirá-las do papel, dizendo que ele as teria cumprido.
E, se não houver um impeachment no meio do caminho, as consequências dessa escolha serão assunto para os próximos quatro anos.
Não sei se as duas horas adicionais de votação determinadas por Cristiano Zanin alteraram o resultado da eleição. Não tenho elementos para afirmar isso, muito menos para atribuir a redução das abstenções a qualquer irregularidade. Mas tenho convicção de que o medo alimentado durante a campanha influenciou a decisão de muitos brasileiros.
Talvez a explicação para a derrota de Flávio Bolsonaro não esteja nas duas horas adicionais de votação, mas nas semanas que as antecederam, quando o medo de perder aposentadorias, de ter dinheiro confiscado ou de ver o patrimônio nacional entregue aos americanos passou a fazer parte das convicções de muitos eleitores.
Na noite de 27 de outubro de 2002, após sua primeira vitória presidencial, Lula declarou que “a esperança venceu o medo”.
Vinte e quatro anos depois, na minha avaliação, a história se inverteu.
Desta vez, foi o medo que venceu a esperança.
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