Eu não acredito no que as urnas disseram ontem, pois destoa do que disseram sobre deputados e senadores, e acho que pedirmos a anulação do pleito é legítimo.
Mas...
Excetuando-se a prorrogação inédita do horário de votação e os 14 milhões de votos (bizarro) que apareceram no 2° turno, é preciso coragem para admitir: grande parte do resultado expressa o que o país realmente é hoje.

Talvez eu ainda esteja sob o efeito da decepção de ser baiano e ver como meus conterrâneos votaram. Mas me parece que estamos descobrindo quem de fato somos. Não é só o Nordeste. É o Brasil. Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro cometeram o crime de colocar um espelho gigante diante de nós. E estamos reagindo como aqueles animais que, ao verem o próprio reflexo, latem, arranham o vidro ou simplesmente não se reconhecem. Talvez, em vez de aceitar o que vemos, estamos preferindo brigar com o reflexo.

Nosso intelecto, nossa capacidade argumentativa e nossa percepção de mundo (enquanto direita) constituem uma exceção, mas a nação, em regra, não é assim. Nós é que, por negação ou por um desejo CRISTÃO otimista de libertar irmãos (a caverna de Platão), achamos que todo mundo pensa como a gente. Na prática, não.
Não sou fatalista nem derrotista, sou realista. É um exercício de humildade olhar para o que o Brasil é, ou pelo menos para uma parte relevante dele.
O ESPELHO
Cerca de 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais (em torno de 40 milhões de pessoas). Eles sabem ler e escrever frases simples, mas têm dificuldade real de interpretar um texto, comparar argumentos ou acompanhar uma discussão minimamente complexa.
O PISA 2025 mostra o Brasil bem abaixo da média da OCDE em leitura, matemática e ciências.
O SAEB (avaliação nacional) confirma isso: a maioria dos alunos não atinge o nível adequado de aprendizagem, especialmente em matemática nos anos finais do fundamental e no ensino médio. A geração que já vota ou vai votar nos próximos ciclos continua saindo da escola com capacidade limitada de interpretação e raciocínio.

As pesquisas de intenção de voto de 2026 (Datafolha, Quaest, Nexus e outras) mostram um padrão claro e recorrente: eleitores com até o ensino fundamental tendem a dar vantagem a Lula, enquanto aqueles com ensino médio e superior tendem a preferir o candidato de direita. Não é coincidência isolada. É o reflexo gritando diante de nós.
A PIOR REGIÃO:

O Nordeste tem taxa de analfabetismo absoluto aproximadamente o dobro da média nacional e concentra mais da metade dos analfabetos do país. Historicamente, é também a região de desempenho eleitoral mais favorável a Lula. A desigualdade educacional e o resultado das urnas caminham juntos há tempo demais para serem tratados como acaso.
Outros grupos que costumamos apontar (presidiários, crime organizado, parte do setor cultural, políticos etc.) existem de fato, mas não são blocos homogêneos nem responsáveis pelo todo. O núcleo mais massivo e estrutural é a baixa capacidade de leitura crítica e interpretação. A que já existe e a que a escola continua produzindo.
Não espere que o setor cultural inteiro mude de lado.
Não é só na política, é na base: na capacidade de ler, interpretar e formar opinião. Enquanto isso não avançar de forma consistente, vamos continuar tendo surpresas eleitorais e descobrindo que o Brasil real é diferente daquele que imaginamos dentro da nossa comunidade.
O flanco mais relevante e transformável é o da alfabetização funcional e da qualidade do ensino básico. É ali que está a maior massa de pessoas com capacidade limitada de interpretação. E é ali que ainda existe margem real de mudança a longo prazo. É preciso ter resiliência.
Não é conformismo, é diagnóstico. E só com honestidade intelectual se pode pensar na solução.
O Brasil pode mudar, mas antes precisa parar de se enganar sobre o que ele é.
NÃO DESISTAM DO BRASIL!
EU NÃO DESISTIREI!
Sérgio Júnior