
A direita voltou a aparecer numericamente à frente da esquerda no Brasil.
Segundo o Datafolha, 44% dos brasileiros foram classificados entre a direita e a centro-direita, enquanto 39% ficaram entre a esquerda e a centro-esquerda. Outros 17% estão no centro. Em 2022, o cenário era bastante diferente: a esquerda somava 49%, contra 34% da direita. (Folha de S.Paulo)
A mudança indica que o brasileiro passou a se identificar mais com a direita, especialmente em temas ligados a comportamento, segurança pública, responsabilidade individual e religião.
Mas existe uma grande diferença entre ser maioria na sociedade e conseguir transformar essa maioria em poder político.
Apesar da vantagem ideológica da direita, Lula continua liderando a disputa presidencial. Em uma pesquisa divulgada em junho, aparecia com 41% no primeiro turno, contra 31% de Flávio Bolsonaro. Em um eventual segundo turno, a vantagem era de 47% a 43%. (Reuters)
A direita cresceu, mas Lula continua à frente. A aparente contradição é explicada pela incapacidade da própria direita de manter o foco.
A direita está até agora presa na discussão de quem é suficientemente “de direita”.
Perde tempo decidindo quem é traidor, quem se tornou moderado demais, quem é liberal demais, quem não é conservador o bastante, quem apoiou o candidato errado e quem tem autorização para representar o campo político.
Toda divergência vira rompimento e cada candidatura concorrente vira uma ameaça existencial. Um único erro de alguém do próprio campo recebe mais atenção do que decisões tomadas pelo real adversário.
A dificuldade para unificar diferentes grupos conservadores em torno de uma candidatura é o nosso principal obstáculo eleitoral.
É claro que a direita não precisa concordar sobre tudo.
Existem diferenças entre conservadores, liberais, nacionalistas, bolsonaristas e representantes da chamada centro-direita. Essas diferenças não desaparecerão — e nem deveriam, porque liberdade política também pressupõe divergência.
Um campo político amplo não precisa se transformar em um bloco intelectualmente uniforme, mas precisa estabelecer prioridades.
É totalmente possível discutir candidaturas sem destruir todos os candidatos. Também é possível apontar erros internos sem transformar a autocrítica no principal conteúdo político da oposição. É possível defender uma corrente da direita sem dedicar a maior parte do tempo a atacar as demais.
A organização necessária começa por algo muito simples: compreender quem governa.
É o governo Lula que define prioridades, administra o orçamento federal, propõe impostos, distribui cargos, conduz a política externa e interfere diretamente na vida econômica do brasileiro.
Portanto, é sobre o governo Lula que deveria recair a maior parte da fiscalização, da investigação e do confronto político.
Não faltam assuntos.
Todos os dias existem decisões, gastos, contradições, promessas não cumpridas e resultados que precisam ser explicados à população. A oposição não precisa fabricar escândalos nem recorrer a exageros. Precisa investigar, organizar as informações e mostrar com clareza as consequências das escolhas feitas pelo governo.
Isso exige disciplina.
Antes de publicar mais um ataque contra alguém do próprio campo, talvez valha perguntar: essa crítica ajuda a derrotar a esquerda ou apenas oferece munição a ela?
Antes de transformar uma divergência em guerra pública, convém lembrar que Lula não precisa convencer toda a população de que seu governo é bom. Basta que a direita permaneça ocupada demais brigando consigo mesma para mostrar o contrário.
A direita já possui força social. O que ainda falta é direção política. Não precisa pensar igual. Precisa parar de trabalhar para o adversário.