
Prefácio à Crônica:
O “Quartinho dos Fundos”, uma analogia a Chaminé de Freud, e ao Porão de Lacan, é uma “Menina dos Olhos”, das minhas crônicas. Escrita em 2006, inspirada em um aluno, no Paraná, já teve centenas de publicações em Jornais e Revistas físicos, e mais de 5 sítios, já foi traduzida em 5 línguas, com mais de 1 milhão de visualizações e solicitado para estudo em uma universidade do Leste dos EUA.
Hoje, com auxílio de um poeta, nato e sublime, trago uma edição revisitada e poética.
Para suas análises e considerações.
Gratidão... Poeta e Leitores!
“O Quartinho dos Fundos! ”
"Atualmente, encontramos pessoas que se comportam como autômatos, que não conhecem ou compreendem a si mesmas, e a única pessoa que conhecem é aquela que se espera que elas sejam..."
Erich Fromm
Cada ser humano carrega dentro de si um espaço que não aparece em retratos nem se revela nas conversas.
É um lugar silencioso, um pequeno cômodo da alma — o quartinho dos fundos — onde guardamos tudo o que não coube na vida apressada que levamos.
Lá ficam as memórias que não tiveram desfecho, os afetos que se perderam pelo caminho, e as palavras que nunca chegaram a ser ditas.
Entre lembranças e silêncios, formamos um depósito invisível de tudo aquilo que evitamos sentir.
Mas por mais que se tente trancar essa porta, o que está lá dentro sempre encontra um jeito de se fazer lembrar.
A verdade é que todos nós temos um “quartinho” desses.
Alguns o mantêm trancado, outros visitam de vez em quando — quando a saudade bate, quando o cansaço pesa, quando o passado chama.
E, em cada visita, há uma descoberta: quanto mais evitamos olhar para dentro, mais o “quartinho” se enche de poeira emocional.
Há quem acredite que o tempo apaga tudo.
Mas o tempo, por si só, não limpa — apenas empilha.
Limpar o “quartinho” é tarefa nossa: exige pausa, coragem e, acima de tudo, vontade de se escutar.
É no silêncio interior que descobrimos o que ainda dói, o que precisa ir embora e o que merece ficar.
Quando encaramos o que nos habita, começamos a compreender melhor nossas reações, nossas escolhas e até nossos medos.
Esse é o ponto em que o jornalismo da alma se encontra com a poesia da existência — a busca por entender o humano em sua forma mais simples e verdadeira.
Não há manchete mais urgente do que o autoconhecimento.
E, aos poucos, o que antes era um depósito de emoções se transforma num abrigo de memórias ressignificadas.
A bagunça vira história, a dor se converte em aprendizado, e a solidão, em calma.
É ali que o reencontro acontece — entre o que fomos e o que ainda podemos ser.
O “quartinho dos fundos” é, afinal, o espelho mais sincero da alma.
Ele nos mostra que não é fraqueza sentir, que o medo tem rosto, e que as cicatrizes também são formas de memória.
Viver é abrir essa porta de vez em quando, tirar o pó do que ficou esquecido e permitir que o ar circule novamente.
Porque, quando o coração respira, a vida também se reorganiza.
O presente ganha cor, o passado se acomoda, e o futuro deixa de ser um peso.
No fim, o “quartinho dos fundos” ensina que limpar a alma não é apagar o que passou — é dar um novo sentido ao que ficou.
José Carlos Bortoloti
Jornalista – Escritor & Cronista
Passo Fundo - RS
Colaborador da Revista No Ponto do Fato.
P.S.:
Título na arte: "O quartinho dos fundos também mora em nós"