
“Entre Caixas e Coragem! ”
“A verdadeira viagem de descoberta não consiste em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos. ”
Marcel Proust
Introdução:
“Há momentos na vida em que não mudamos apenas de endereço — mudamos de pele, de direção, de fôlego. E é dentro desses intervalos silenciosos, onde tudo parece provisório, que a verdadeira transformação começa a acontecer. Esta crônica nasce desse instante suspenso: o período entre empilhar e partir, entre guardar e recomeçar...! ”
As caixas continuam ali, empilhadas no canto da sala, como pequenas sentinelas de papelão, guardando uma vida inteira em silêncio.
Antes mesmo de tocá-las, sinto que elas me observam, como se esperassem o momento em que finalmente aceitarei que é hora de mudar.
Há algo, quase solene, no modo como repousam, como se carregassem não apenas objetos, mas capítulos inteiros que já não cabem onde sempre estiveram.
Há semanas, talvez meses, elas formam uma espécie de mural temporário entre o que fui e o que ainda não sei se posso ser.
Cada uma guarda algo que me pertence, mas que, ao mesmo tempo, parece já ter pertencido a outra versão de mim — uma versão que se cansou de espaços apertados, de rotinas repetidas, de janelas que nunca mudam de paisagem.
É curioso como o mundo cabe dentro de embalagens tão frágeis.
Há objetos que, só de tocar, denunciam o tempo que vivi com eles; outros carregam um silêncio tão denso que é quase impossível não ver o sinal dos dias em que foram importantes.
Roupas dobradas com pressa, livros que levo comigo desde sempre, memórias que se recusam a ser encaixotadas com ordem.
Cada item, por menor que seja, parece exigir uma despedida própria.
Tudo ali é um catálogo íntimo da minha história.
E, mesmo assim, não consigo fechar a última caixa.
Falta-me o gesto final, o lacre que anuncia a coragem.
Porque mudança não murmura; mudança chama.
Mudança insiste.
Mudança bate à porta com força, lembrando que permanecer no mesmo lugar também é uma escolha — só que uma escolha que pode custar caro.
E é justamente essa cobrança que mais se faz sentir nesses dias: o peso daquilo que não muda por falta de decisão.
Às vezes, não é o medo do novo que paralisa, mas o apego ao velho — mesmo quando o velho já não nos serve mais.
Enquanto observo o amontoado de papelão, percebo que não é apenas a casa que desejo trocar.
É algo mais profundo, mais raro, quase indizível.
Há uma necessidade de reorganizar não só cômodos, mas sensações, expectativas, vazios.
Quero mudar a maneira como caminho pelos dias, como ocupo os espaços, como organizo meus silêncios.
Quero um teto que permita novos respiros, novas manhãs, novas versões de mim.
Quero paredes que não repitam sempre as mesmas sombras.
Quero janelas que não tenham medo de abrir mais.
Nessa pausa entre empilhar e partir, descubro que mudar não é abandonar o que fui, mas reorganizar o que quero ser.
Que desmontar uma casa é, quase sempre, começar a montar outra por dentro.
E que, às vezes, a vida só anda quando a gente se permite dobrar os mapas e escolher outra direção.
Há decisões que não chegam com estrondo, mas com pequenas certezas: aquela vontade de respirar melhor, de acordar com outros sons, de se ver em outros espelhos.
As caixas continuam ali — mas já não são um fim.
São o começo.
E, dentro delas, vive a promessa de que a vida, quando quer, se renova.
Basta que eu abra a porta e finalmente vá.
Leituras & Pensamentos da Madrugada.
Transpirado de um ser que compreende, transcende e
sabe que o amor nasce primeiro na alma.
José Carlos Bortolotti — Passo Fundo, RS
Integrante, Filiado, Associado e Adotado da
Nova Entidade no Brasil — AJOIA
Associação Brasileira de Jornalistas Independentes e Afiliados
Colaborador da Revista No Ponto do Fato