
#PensarNaoDoi
"A Linha Invisível do Amor!"
“Amei até a loucura.
O que chamam de loucura é, para mim,
a única forma sensata de amar. ”
Françoise Sagan
Tenho ouvido essa pergunta com insistência:
O que está acontecendo com as relações?
Perguntam-me como se eu fosse especialista no assunto. Não sou. Muito pelo contrário. Apenas observo. E, talvez por isso mesmo, minha resposta quase sempre causa estranhamento:
Nada está acontecendo.
As relações sempre foram assim. Ou piores.
Então, se nada mudou, por que a sensação de colapso?
Talvez porque estamos finalmente olhando com mais atenção para nós mesmos. E isso é perigoso. Olhar para dentro exige coragem — e poucos estão dispostos a sustentar o que encontram.
Costuma-se dizer que tudo mudou por causa da libertação do pensamento feminino. Não creio. As relações homoafetivas também enfrentam os mesmos impasses. O problema não está no gênero, na orientação ou na época. Está no modo como nos vinculamos.
E aqui entra um conceito antigo, mas extremamente atual: o sofisma.
O sofisma é um raciocínio que parece verdadeiro, mas é construído para convencer, não para revelar. Mistura verdade e fantasia. Realidade e desejo. Não mente descaradamente — seduz.
Agora, saiamos da filosofia e voltemos às relações.
Não fazemos exatamente isso quando amamos?
Na conquista, somos quase irrepreensíveis. Cedemos, moldamo-nos, sacrificamos pedaços de nós mesmos. Vestimos a melhor versão — não a mais verdadeira, mas a mais desejável.
E quando o outro nos escolhe?
Então começa o paradoxo:
ou queremos mudar quem nos escolheu,
ou passamos a ser pressionados a mudar.
O que antes encantava, agora incomoda.
O que era singular, agora precisa de ajustes.
E, pouco a pouco, deixamos de ser quem somos em nome do que chamamos de amor.
Não é o amor que falha.
É o sofisma afetivo.
Dizemos que amamos, mas tentamos corrigir.
Dizemos que aceitamos, mas impomos.
Dizemos verdades, omitimos outras e, sim, às vezes mentimos — acreditando que isso mantém o vínculo.
O que realmente mudou, então?
Talvez estejamos aprendendo, ainda que timidamente, a SER, antes de apenas TER alguém. Ou o amor aprofunda — ou se torna efêmero. O “ficar” surge como defesa: menos promessa, menos risco, menos dor. Mesmo assim, quase todos continuam procurando o grande amor.
E então vem outra pergunta inevitável:
Por que é tão difícil dar certo?
Porque confundimos amor com transferência. Tentamos mudar o outro para aliviar nossas próprias inseguranças. Queremos consertar fora o que está desorganizado dentro.
E quando parece que está dando certo, surge o comodismo. Não porque o amor acabou, mas porque nunca foi construído com consciência — apenas com emoção.
O amor, por mais romântico que soe, é também racional. Nietzsche defendia isso. Amar não é perder-se completamente, é sustentar-se enquanto se entrega.
No início, queremos saber tudo sobre o outro. Dizemos que é para conhecer profundamente. Mas, muitas vezes, é apenas para medir até onde nossos defeitos serão tolerados. Ou até onde poderemos controlar.
Quando a magia acaba, cada um encontra seu jeito de partir. Alguns precisam de explicações detalhadas. Outros somem. Recolhem-se, curam-se, e voltam a amar — se ainda souberem como.
Não existe um jeito certo de amar.
Mas existe um jeito honesto.
Não aprendemos a doar sem nos anular...
Nem a perdoar sem nos violentar...
E quase nunca aprendemos a delimitar.
É aqui que entra a linha invisível do amor.
Todos precisamos de uma linha.
Um limite silencioso, mas firme.
Um espaço onde o outro não invade — e onde também não invadimos.
Essa linha protege a intimidade, a dignidade, o que é só nosso. Sem ela, não há amor. Há fusão, controle, medo.
Nietzsche dizia que a verdadeira força está em enfrentar a perda, não em evitá-la. Quando não conseguimos atravessar esse processo, algo — ou alguém — está nos impedindo de ser inteiros.
Então ame.
Do seu jeito.
Com intensidade, se for o caso.
Mas mantenha sua linha.
E respeite a do outro.
Quando essa linha é ultrapassada, o amor não se transforma — ele termina. E não adianta lamentar. Amor sem respeito não é amor. É dependência.
Talvez amar seja isso:
Uma dança delicada entre entrega e limite.
Entre presença e preservação.
Pensar nisso não dói.
Mas amar…
Amar exige coragem....
Entendimentos & Compreensões
Leituras & Pensamentos da Madrugada
José Carlos Bortoloti – Passo Fundo – RS
Colunista e colaborador da Revista No Ponto do Fato.