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“A SOFISTICAÇÃO DA SIMPLICIDADE!”

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José Carlos Bortoloti
Por: José Carlos Bortoloti
16/11/2025 às 17h13 Atualizada em 05/12/2025 às 14h03
“A SOFISTICAÇÃO DA SIMPLICIDADE!”

A Sofisticação da Simplicidade!

 

“...A simplicidade é o último grau da sofisticação...”

Leonardo da Vinci

 

Há frases que não envelhecem. Algumas carregam uma pureza que se esconde nas entrelinhas; outras atravessam séculos com a leveza de um sopro, tocando o essencial do humano.

Esta é uma delas — um lembrete de que a grandeza raramente grita; ela se revela no que é verdadeiro, no gesto humilde que brilha sem querer ser visto.

Charles Dickens compreendia isso melhor que muitos. Desde os primeiros textos assinados como Boz, ele caminhou entre pessoas comuns, ouviu suas dores, percebeu suas esperanças e transformou tudo em palavras que ressoam até hoje. Tornou-se o escritor mais popular da era vitoriana não por adornar a vida, mas por enxergar beleza onde tantos só viam escassez. Ele sabia que a sofisticação verdadeira nasce primeiro na alma e depois, apenas depois, se manifesta nos gestos.

Quando sua biógrafa Claire Tomalin disse que “Charles sempre será amado pelas pessoas comuns, que sabem que ele está ao lado delas”, não falava apenas do homem, mas do espírito de sua obra. Dickens transformava o cotidiano em literatura e, com isso, ensinava que elegância não se compra; ela se cultiva.

Sua lápide na imponente Abadia de Westminster registra:

“Apoiante dos pobres, dos que sofrem e dos oprimidos. ”

Não é apenas uma memória — é um convite. Um lembrete de que a vida bem vivida está na entrega aos outros, e não na ostentação.

Eis o ponto central: sofisticação e simplicidade não são opostos.

São irmãs silenciosas.

Caminham juntas onde há verdade, onde o coração percebe o valor do gesto mínimo.

A verdadeira classe não se aprende em manuais de etiqueta, nem se compra em vitrines iluminadas.

Ela mora na suavidade de uma voz que não fere, no olhar que acolhe, na maneira de tocar o mundo sem precisar fazer barulho.

Um café tomado com guardanapos de papel pode ser mais elegante que um banquete de cristal — se feito com cuidado, atenção e afeto.

No sul do Brasil, especialmente nas serras gaúchas, a gentileza parece ter sido guardada como herança de berço. Abrir a porta, servir primeiro, ajeitar a cadeira — não é ritual, é respeito moldado no cotidiano. Em Gramado, Canela/RS, Blumenau ou Joinville/SC, a delicadeza se revela nos detalhes: uma toalha rendada, um gesto que se prolonga em silêncio, o tempo que se dedica a quem está ao lado.

Nada disso tem relação com riqueza.

Ostentação é irmã da insegurança.

O novo rico confunde marcas com estilo, cifras com refinamento, brilho com essência.

A alma, porém, não se compra.

E sem ela, toda riqueza vira apenas reflexo de vitrine.

A verdadeira pobreza está na ausência de sensibilidade.

E a verdadeira riqueza se revela nos gestos pequenos, mas imensamente humanos:

Ceder o assento a uma senhora, respeitar uma fila, sorrir sem motivo, pedir desculpas, chegar no horário.

São atitudes que costuram o tecido da convivência e revelam a grandeza oculta de quem somos.

Em tempos tão apressados e barulhentos, talvez o que mais nos falte seja justamente isso: delicadeza.

Ela não é fragilidade — é força silenciosa.

É escolher, a cada instante, enxergar e honrar o outro como alguém que importa.

É transformar o cotidiano em poesia sem precisar de aplausos.

Ensinar isso às crianças não é futilidade: é herança moral.

É formar cidadãos capazes de transformar a vida em convivência digna, humana, bela.

Cada gesto ensinado, cada palavra ouvida com atenção, cada exemplo vivido é semente de mundo melhor.

Glória Kalil escreveu com precisão:

“Fazer alguém esperar sem uma desculpa séria, sem motivo importante e, principalmente, sem um telefonema no meio do caminho para justificar o atraso, é prova de arrogância e falta de civilidade. ”

A elegância, então, mora nos detalhes invisíveis — no “me desculpe”, no “estou chegando”, no “posso ajudar? ”.

Ser simples e sofisticado ao mesmo tempo é possível.

Ser pobre e elegante também.

Porque a verdadeira medida de um ser humano não está no que possui, mas no modo como se derrama no mundo.

Pensar não dói.

Delicadeza não dói.

Sofisticação não dói.

E, ainda assim, pode iluminar tudo ao redor.

 

 

 

 

Leituras & Pensamentos da Madrugada

Transpirado de um ser que compreende;

Que a classe nasce primeiro na alma

José Carlos Bortoloti – Passo Fundo – RS

Integrante, filiado, associado e adotado

 da nova entidade no Brasil -   AJOIA –

Associação Brasileira dos Jornalistas Independes e afiliados.

Colaborador da Revista No Ponto do Fato

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Eduardo Há 3 meses Lorena SPShow ???? ???? ????
Sheyla Há 3 meses Toledo/PRTexto perfeito e necessário. Obrigada por nos presentear Borto ????????
Haroldo Barbosa FilhoHá 3 meses São Paulo - SPAplausos, Professor Borto!
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José Carlos Bortoloti
José Carlos Bortoloti
Cronista e Escritor - Coautor do Livro Línguas de Fogo - Jornalista/Radialista - DRT/RS 872
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