
É preciso que se diga: o Brasil virou uma extensão da “Loteria da Babilônia”, aquele conto do Borges onde o acaso e o arbítrio tornam-se indistinguíveis, e o destino dos homens é jogado aos dados por uma Companhia invisível que decide quem será preso, promovido, torturado ou recompensado, tudo sem critério aparente.
Pois bem: a nossa Companhia existe.

Não se trata mais de política — mas de metafísica. Estamos dentro de uma distorção de realidade semelhante à de O Jogo da Amarelinha, de Cortázar, onde os significados se embaralham e a razão é sugada por uma espiral de arbitrariedades pseudo-legais.
É o mundo do surrealismo tropical, com pitadas de cachaça constitucional e jaleco de toga. O sistema jurídico deixou de interpretar a lei para criar realidade, como em Cem Anos de Solidão, onde os arquivos da memória são queimados para que a História possa ser reescrita ao sabor do tirano. Só que aqui, Macondo se é a Ilha de Brasília, e o coronel Aureliano Buendía atende pelo nome de Baldomiro.
A prisão de Bolsonaro não é um fato jurídico: é uma encenação gnóstica. O objetivo nunca foi punir um crime, mas reencenar a Paixão de um líder para exorcizar o “fantasma” do antipetismo que ainda assombra a República.
Cada medida contra ele carrega uma carga simbólica equivalente à condenação de Sócrates: a figura incômoda que deve ser silenciada para restaurar a ordem da mentira.
A denúncia de David Ágape e Eli Vieira sobre a “Vaza Toga” (a verdadeira Vaza Jato do Supremo) mostra como esse regime de exceção foi construído não em cima de crimes, mas em cima de posts, emojis e curtidas.
Estamos diante da maior farsa judicial desde os processos de Moscou: um espetáculo onde o juiz é também o acusador, onde a prova é o meme e a sentença é escrita antes do interrogatório. É como se Kafka tivesse fundado uma república em que todos são culpados por serem.
A reação do establishment midiático e acadêmico é a esperada: o silêncio dos cúmplices e o riso dos débeis. Como dizia Camus, “não ser amado é apenas falta de sorte; mas não amar é uma desgraça.” E o Brasil, hoje, não ama a liberdade. Não ama a justiça. Não ama a verdade. Ama apenas a estabilidade podre do consenso que, como alertava Vargas Llosa, é sempre o álibi do autoritarismo populista latino-americano.

Vivemos sob uma nova forma de bolivarianismo togado, um consórcio de poder que sequestrou os três poderes e fundiu-os numa teocracia ideológica, onde os deuses são vermelhos e os demônios, verde-amarelos.
Calvón é, ao mesmo tempo, sumo sacerdote, inquisidor-mor e operador técnico da máquina de complexidades censuradoras. Um Torquemada pós-moderno, que esconde a guilhotina atrás do sorriso constitucional.
A idolatria das instituições e o desprezo pelos seres humanos é a própria definição da ditadura. E quem ousar dizer o contrário será triturado na roleta russa jurídica da Suprema Companhia.
Eis o Brasil de 2025: uma distopia iberoamericana escrita por García Márquez, dirigida por Cortázar, censurada por Humpty-Dumpty e aplaudida por jornalistas que usam cueca com estampa do Che Guevara. Um teatro de horrores. Uma Babilônia de toga.
Talvez, como no conto de Borges, o próximo passo da Companhia seja decretar que nem mesmo os julgadores saibam o que estão julgando, e os réus não saibam por que foram condenados. Mas não importa: no fim, a Verdade ressuscita.
E quando ela vier, a Companhia cairá. E junto com ela, o último delírio do complexo da distopia brasileira.
