
(Psicanálise: entenda a principal ferramenta da extrema-esquerda)
Formação reativa / discurso sobre democracia
Havia um amigo de Minas Gerais, que me enchia a paciência com assuntos de moralidade e enxergava "taras" em todo mundo na igreja. Ele arrogava santidade com muita ênfase e, eu, teólogo, mas psicanalista, disse a ele: cara, Freud ainda vai te gerar problemas. Você pode estar projetando nos outros o que está em você". Ele mandou aquele jargão :"tá amarrado", e eu ri, cinicamente.
Passaram-se oito meses e eu estava atendendo ele e a esposa no meu gabinete, para tentar reconciliar uma traição daquelas que ele sugeria que acontecia com outro irmão.
Na psicanálise de Freud, os mecanismos de defesa são estratégias inconscientes que o ego utiliza para proteger a mente da ansiedade gerada por conflitos entre os impulsos do id (os desejos instintivos e muitas vezes "proibidos"), as exigências do superego (a consciência moral internalizada) e a realidade externa. A formação reativa ocorre quando um indivíduo transforma um impulso ou sentimento inaceitável em seu oposto, expressando-o de forma exagerada ou ostensiva.

Por exemplo, alguém que sente desejos sexuais intensos que julga moralmente errados (seja por repressão cultural, religiosa ou pessoal) pode reprimir esses impulsos e, em vez disso, adotar uma postura hipercrítica ou puritana em relação à sexualidade. Essa pessoa pode pregar castidade, condenar comportamentos libertinos ou insistir em sua própria "pureza" de maneira quase obsessiva. Para Freud, essa ênfase exagerada não é apenas uma fachada para os outros, mas também uma tentativa de convencer a si mesma de que esses impulsos não existem.

A DEFESA DA DEMOCRACIA
Quando alguém da extrema-esquerda ou do judiciário, insiste de forma exagerada em defender a democracia, o estado democrático de direito ou em denunciar "milícias digitais" (grupos organizados que supostamente ameaçam esses valores), Freud poderia interpretar isso como uma possível formação reativa. Nesse caso, a pessoa estaria reprimindo impulsos ou ações que ela mesma percebe como antidemocráticas, autoritárias ou moralmente questionáveis, e, para compensar, adota uma postura hiperbólica de guardiã da liberdade e da justiça.
Por exemplo, imagine alguém que, no fundo, tem inclinações autoritárias — talvez um desejo inconsciente de controlar os outros, silenciar discordâncias ou impor sua visão de mundo. Esses impulsos, sendo inaceitáveis para alguém que se identifica com valores democráticos (ou que quer ser visto assim pela sociedade), são reprimidos pelo ego. Para aliviar a ansiedade gerada por esse conflito interno, a pessoa passa a proclamar incessantemente sua devoção à democracia, ao pluralismo e ao estado de direito, como se estivesse tentando provar algo — tanto para si mesma quanto para os outros.
O CASO DA "MILÍCIA DIGITAL"
O foco obsessivo em denunciar "milícias digitais" — grupos acusados de espalhar desinformação ou manipular opiniões online — pode ser outro terreno fértil para a formação reativa. Freud poderia sugerir que alguém que fala excessivamente sobre isso, talvez esteja lidando com sua própria culpa ou medo de estar contribuindo, mesmo que indiretamente, para dinâmicas semelhantes. Por exemplo, essa pessoa pode ter participado de comportamentos como manipulação de narrativas, ataques coordenados ou silenciamento de vozes contrárias no passado (ou ainda o faça secretamente) e, para evitar encarar essa contradição, ou que alguém ouse pensar nisso, transforma "milícias digitais" em um inimigo externo a ser combatido com veemência.
Aqui, o exagero na denúncia serve como uma cortina de fumaça: ao apontar o dedo para os outros, ela desvia a atenção de suas próprias falhas ou impulsos. É quase como se, ao gritar contra a "ameaça à democracia", estivesse tentando abafar a voz interna que sussurra sobre suas próprias tendências antidemocráticas ou manipuladoras.
CONFLITO ENTRE ID, EGO E SUPEREGO
Na teoria freudiana, o id pode abrigar impulsos como o desejo de poder, dominação ou intolerância — todos naturais, mas frequentemente incompatíveis com os ideais de um estado democrático de direito. O superego, por outro lado, internaliza os valores sociais de igualdade, justiça e liberdade, exigindo que a pessoa se alinhe a esses princípios. Quando o ego percebe que os desejos do id entram em choque com as demandas do superego, ele pode recorrer à formação reativa para resolver essa tensão.
Assim, alguém que no fundo sente prazer em controlar narrativas ou em vencer debates a qualquer custo (mesmo que isso signifique ignorar a oposição) pode se transformar em um defensor ferrenho da democracia.
O discurso inflamado sobre "valores democráticos" torna-se uma máscara que esconde — e ao mesmo tempo expressa — o oposto do que a pessoa prega.
ÊNFASE EXAGERADA COMO PISTA
O que diferencia uma defesa genuína da democracia de uma formação reativa, na visão de Freud, é o tom e a intensidade. Se a ênfase é desproporcional, quase performática, e acompanhada de inflexibilidade ou intolerância paradoxal (como atacar ferozmente quem questiona suas ideias "democráticas"), isso pode ser um sinal de que algo mais profundo está em jogo. A pessoa não está apenas defendendo um ideal; está lutando contra si mesma, tentando sufocar impulsos que não quer admitir.
EXEMPLOS
O ativista online: Alguém que passa o dia denunciando "milícias digitais" e exaltando o estado democrático de direito, mas que, em privado, organiza campanhas para silenciar opositores ou manipular discussões. A formação reativa aparece na insistência em se apresentar como um "protetor da democracia", enquanto o inconsciente revela um gosto por táticas que ele mesmo condena.
O POLÍTICO ELOQUENTE
Um líder que faz discursos apaixonados sobre liberdade e pluralismo, mas que, em segredo, sonha com um poder absoluto ou age para minar adversários. Sua retórica democrática seria uma tentativa de apaziguar a culpa e projetar uma imagem oposta ao que teme ser.
RESSALVA
Mas é preciso ter cuidado, assim como no caso da moral sexual, nem todo defensor da democracia está usando formação reativa. Muitos de forma genuína, acreditam nesses valores sem conflitos internos. O que Freud destacaria é o excesso: quando o discurso soa mais como uma cruzada pessoal do que como uma reflexão equilibrada, pode haver algo reprimido por trás. Além disso, esses processos são inconscientes — a pessoa não está "mentindo" de forma deliberada, mas sendo movida por forças que não controla plenamente.
CONCLUSÃO
No contexto atual, com redes sociais amplificando vozes e polarizando debates, o terreno para a formação reativa é vasto. Alguém que acusa outros de "ameaçar a democracia" pode estar, sem perceber, tentando justificar suas próprias ações autoritárias ou intolerantes.
Freud diria que, em um mundo de narrativas em choque, o inconsciente encontra formas criativas de se expressar — e a ênfase excessiva em certos ideais pode ser uma dela.
Sérgio Júnior