
Eu perguntei ao meu avô por que as pessoas mais velhas que contavam uma certa história “proibida” estavam morrendo de formas estranhas: envenenamento, escutas nas casas, asfixia com gás… A imprensa dizia que era tudo teoria da conspiração. Insisti. Ele me olhou longamente, suspirou e disse:
“Eu imaginava que um dia você ia me perguntar isso. A verdade é que eu não posso contar tudo citando nomes, datas ou detalhes. Vou criar uma história. Você, com sua inteligência, vai entender. Mas não me faça perguntas depois. Combinado?”
Eu concordei, com o coração apertado.
Então ele começou, com a voz baixa e firme:
“Era uma vez um país que se orgulhava de ser verdadeiramente democrático. Seu povo era alegre, cheio de fé e festivo. As cidades pulsavam com uma plêiade brilhante de artistas, poetas, músicos e pensadores que, com talento genuíno, capturavam a alma da nação. Havia um grande veículo de imprensa, respeitado por quase todos, visto como guardião da verdade e farol da opinião pública.A democracia, ainda marcada pelas lembranças de uma opressão anterior, era jovem e imperfeita. Crescia entre debates acalorados, eleições disputadas e aquela ingenuidade de quem acredita que a liberdade conquistada é eterna.
Porém, nas sombras das fronteiras invisíveis, células internacionais antidemocráticas — dotadas de poder financeiro colossal — observavam. Eram organizações sem pátria, mestres na arte da infiltração, que transformavam fraquezas em armas. Queriam manter o país eternamente ‘emergente’, impondo metas, selos, freios e controles.
Aproveitaram-se da insatisfação natural de uma nação em crescimento, das feridas ainda abertas, das desigualdades eternas e da impaciência de um povo que queria tudo para ontem.
Com habilidade cirúrgica, aproximaram-se primeiro dos banqueiros. Ofereceram-lhes um rio de dinheiro infinitamente superior, constante, quase ilimitado. A fonte? O crime organizado: tráfico, contrabando, corrupção sistemática, economias paralelas que cresciam nas entranhas da sociedade.Os bancos não resistiram. Trocaram a estabilidade pelo lucro fácil. Surgiram novos bancos menores, o que enriqueceu e pulveriizou ainda mais o dinheiro sujo, dificultando o rastreamento.
O grande jornal, que antes vivia de credibilidade e anúncios sérios, foi seduzido pela mesma enxurrada de dinheiro sujo: publicidade milionária, investimentos e eventos disfarçados, proteção política. E o grupo político de esquerda — outrora idealista e romântico — encontrou nesses aliados o poder que as urnas sozinhas jamais lhe dariam com tanta rapidez. Assim nasceu o "Sistema". Aquela época não era mais sobre um partido político alinhado com uma facção criminosa, sobre um banco ou sobre a editoria de um jornal. Era um organismo vivo, híbrido, quase orgânico. Uma simbiose perversa:
O crime fornecia o dinheiro sujo.
Os bancos o lavavam e multiplicavam.
A imprensa o legitimava e ocultava.
A política o protegia com leis, narrativas e cargos estratégicos.
O povo, entretido com futebol, Carnaval e comicidade barata, perdeu pouco a pouco a capacidade de enxergar. Os artistas foram cooptados e transformados em celebridades do regime. O jornal virou porta-voz oficial do regime. A democracia virou espetáculo de perseguição e repressão ao pensamento diferente. As eleições continuavam, mas o resultado já era decidido nos bastidores.O país que sonhou ser livre, acordou preso por engrenagens sutis e extremamente lucrativas. Chamaram isso de ‘democracia’. Nós, que lembrávamos como era antes, chamávamos de "Sistema".
Mas quando já não havia mais esperança… surgiu um homem diferente. Vinha das Forças Armadas, era corajoso e enfrentava o Sistema de frente. Falava a linguagem do povo simples. Conseguiu explicar, de forma clara, o que estava acontecendo. O Sistema reagiu e tentou matá-lo com uma facada no coração. Ele sobreviveu. E ganhou a eleição daquele ano.
Aí, aí… (vovô colocou a mão no peito e o rosto ficou pálido)…”— Vovô, você está bem?"
Ele não me respondeu e continuou com a voz mais baixa, carregada de um senso de urgência:
“…depois disso, o Sistema… não aceitou a derrota. Começou a… a…
O rosto de vovô ficou pálido. Ele apertou o peito com mais força, os olhos arregalados de dor e de algo que parecia… medo.
— Vovô? — eu chamei, já me aproximando.
Ele tentou continuar, a voz rouca e entrecortada:
“…eles me acharam. Eles… vêm atrás de quem… conta a verdade. Meu neto… você precisa… entender que… o Sistema… ainda…”
Uma tosse seca o interrompeu. O corpo dele estremeceu. A mão que antes gesticulava com tanta vida agora tremia descontrolada.
— Vovô! Vovô, o que está acontecendo?!
— gritei, segurando seu braço.Seus olhos encontraram os meus. Por um segundo, vi neles todo o peso dos anos, toda a história que ele não conseguia mais contar. Ele abriu a boca uma última vez, como se quisesse dizer algo urgente, algo decisivo…Mas só saiu um suspiro longo e fraco.O corpo dele tombou lentamente para o lado na poltrona.
Eu pedi socorro, (sabia que era inútil) e fiquei ali, paralisado, segurando a mão dele que ainda estava quente.
A história que o vovô não terminou de contar.E naquele silêncio, pela primeira vez, eu entendi:
talvez o verdadeiro final da história não fosse para ele contar…era para eu viver.
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