
Uma paralisação nacional de entregadores de aplicativos, como iFood, Rappi e Uber Eats, chegou ao fim nesta quinta-feira (3), após dois dias de mobilização que parou serviços de delivery em diversas capitais e cidades do interior do Brasil. Encerrada ontem, a greve, batizada de "Breque Nacional dos Apps 2025", teve como bandeiras principais o reajuste nas taxas de pagamento e a melhoria das condições de trabalho, mas, apesar de seu impacto em grandes centros urbanos, o movimento não conseguiu se manter entre os assuntos mais comentados nas redes sociais ou na mídia tradicional hoje.
O Movimento e Suas Demandas
A paralisação, realizada entre 31 de março e 1º de abril, foi convocada por entregadores autônomos e apoiada por entidades como o Sindicato dos Mensageiros Motociclistas, Ciclistas e Mototaxistas do Estado de São Paulo (Sindimoto-SP). A categoria exigiu uma taxa mínima de R$ 10 por corrida — contra os atuais R$ 6,50 pagos pelo iFood, por exemplo — e um aumento no valor por quilômetro rodado, de R$ 1,50 para R$ 2,50. Outras pautas incluíram a limitação de entregas por bicicleta a um raio de 3 quilômetros e o pagamento integral por pedido em rotas agrupadas, prática comum que reduz os ganhos dos trabalhadores.
"Não dá mais pra rodar com esses valores. Gasolina subiu, manutenção da moto tá cara, e a gente fica na rua 12 horas por dia pra mal pagar as contas", desabafou Júnior Freitas, uma das lideranças do movimento em São Paulo, durante ato na Avenida Paulista no dia 31. Em Brasília, cerca de 1,5 mil motociclistas aderiram à paralisação, segundo o Sindimoto-DF, representando 70% da categoria local. Protestos, motociatas e buzinaços marcaram as ações em cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre.
Impacto nas Cidades e Reação do Setor
O movimento gerou transtornos visíveis nas grandes cidades. Em São Paulo, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-SP) relatou que estabelecimentos dependentes do iFood sofreram quedas de até 100% nas entregas durante os dois dias, enquanto os que usam múltiplas plataformas viram o movimento cair entre 70% e 80%. Consumidores relataram atrasos de até duas horas e cancelamentos frequentes, especialmente na hora do almoço. "Tentei pedir comida na segunda e nada. O aplicativo só dizia ‘sem entregadores disponíveis’", contou Mariana Lopes, moradora da zona sul paulistana.
Apesar disso, as empresas de aplicativos minimizaram o impacto. O iFood, líder do mercado, afirmou que mantém "uma agenda permanente de diálogo" com os entregadores e que, em São Paulo, 60% das entregas são feitas por frotas próprias dos restaurantes, o que teria reduzido os efeitos da paralisação. A empresa também disse que estuda um reajuste nas taxas para 2025, mas não foi notificada oficialmente pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) ou pela Justiça sobre as ações movidas pelo Sindimoto-SP. Rappi e Uber Eats, por meio da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), reiteraram o respeito às manifestações e destacaram que os entregadores são "profissionais autônomos", sem vínculo empregatício.
Sindicatos na Justiça e o Silêncio Pós-Greve
Insatisfeito com a falta de avanço nas negociações, o Sindimoto-SP acionou o MPT, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) e o Tribunal Superior do Trabalho (TST) na terça-feira (1º), pedindo mediação com as plataformas e até com redes como McDonald’s e Burger King, que dependem fortemente do delivery. O sindicato acusa as empresas de "práticas antissindicais", como oferecer bônus de até R$ 800 para desmobilizar os trabalhadores durante a greve — alegação negada pelo iFood, que diz não ter enviado incentivos nos dias do protesto.
Embora a paralisação tenha mobilizado milhares — com estimativas do sindicato apontando adesão em cerca de 70 cidades —, o tema perdeu força na mídia e nas redes sociais nesta sexta-feira (4). Analistas apontam que a ausência de uma liderança unificada e a concorrência com notícias geopolíticas, como as tarifas de Trump, podem ter ofuscado o movimento. "Foi um grito importante, mas fragmentado. Sem uma resposta concreta das empresas ou do governo, o fôlego se dissipou rápido", avalia Carlos Almeida, pesquisador de movimentos trabalhistas da USP.
Um Debate que Não Termina
A paralisação reacende a discussão sobre a precariedade do trabalho por aplicativos no Brasil, onde cerca de 1,5 milhão de pessoas têm o delivery como principal fonte de renda, segundo o Ipea. Apesar das promessas do governo Lula em 2023 de regulamentar a categoria, as negociações emperraram no ano passado, sem consenso entre trabalhadores, empresas e o Ministério do Trabalho. Enquanto as plataformas lucram — o iFood reportou receita de R$ 7,1 bilhões em 2023 —, os entregadores seguem sem garantias como seguro de vida ou aposentadoria, dependendo exclusivamente do que ganham por corrida.
Para os trabalhadores, o "Breque Nacional dos Apps 2025" foi um recado. "Se fomos essenciais na pandemia, por que continuamos invisíveis?", questionou um vídeo viral do movimento, que atingiu 1 milhão de visualizações no Instagram. Resta saber se o eco das ruas será suficiente para mudar as regras do jogo ou se a paralisação será apenas mais um capítulo na longa luta por dignidade no setor.