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Somos Todos Manés, Débora

Sinto muito

Sérgio Júnior
Por: Sérgio Júnior
30/03/2025 às 09h33 Atualizada em 30/03/2025 às 09h43
Somos Todos Manés, Débora

SOMOS TODOS MANÉS, DÉBORA.

Minha cara Débora Rodrigues, eu gostaria de pegar em suas mãos e dizer: sinto muito.

Sinto por você ter sido arrastada para esse covil de ladrões e canalhas que virou a política brasileira. Sinto por você ter sido ludibriada pela chance de uma mudança que não virá tão cedo.

Sinto por você ter sido erguida até o topo da estátua da justiça e levada a escrever com seu batom a frase "Perdeu, mané", que nos pegou de surpresa, nos tirou a cidadania, a democracia e a vida.

Eu sei que você, Débora, já deve ter ouvido outras vezes essa frase, só que dita da boca de um criminoso. De um criminoso no ponto de ônibus, na saída do banco, na porta de casa, numa blitz forjada. Mas nunca, nunca da boca de um ministro da mais alta corte do país. Perdemos todos, Débora.

Somos todos manés. Somos manés porque nos acostumamos a chamar autoridade de doutor.

Nos acostumamos a aceitar seus privilégios autoconcedidos, suas gratificações, licenças remuneradas, milhões, bilhões de penduricalhos, cada vez menos pendurados e mais consolidados.

Somos todos manés, pois assistimos atônitos a Lava Jato ser desmontada e seus integrantes serem chamados de criminosos e corruptos.

Somos manés, Débora, pois deixamos a vida ser dessacralizada, nossas crianças serem violentadas, emocional e fisicamente. Assistimos atônitos nossas terras serem invadidas, nossos bens expropriados.

Permitimos, sem questionar, que nossos jovens se formem sem saber interpretar um texto, ou mesmo somar, subtrair, multiplicar e dividir. Sem saber multiplicar nossos esforços, deixamos que nos dividam, subtraindo nossa energia mental, nossa saúde, pois nos deixamos governar por quem quer nos destruir. Comemos poeira enquanto vemos nosso dinheiro desviado para obras em outros países. Morremos nas filas dos hospitais, enquanto estádios de futebol são erguidos na base da propina.

Somos tão manés, Débora, que acreditamos nas mesmas promessas de campanha todos os anos e até mesmo em milagres, como fazer chover picanha e cervejinha. Pedimos intervenção militar, Débora, achando que moralidade se mede nas estrelas dos uniformes bem passados dos generais.

Somos manés a ponto de passarmos dias e noites na porta de quartéis sob chuva com nossos filhos e pets.

Somos manés por querermos mudar o país de graça, enquanto ongueiros, ativistas, advogados, políticos, jornalistas e artistas cobram gordos cachês, enchem os bolsos de emendas parlamentares.

Só manés, Débora, acham que um sistema de poder pode ser mudado com um voto, um discurso, um dedo em riste, uma tuitada, pintando uma frase de batom numa estátua.

Eu sinto muito, Débora, por você ter sido afastada do convívio do Caio e do Rafael, sem poder ajudar Rafinha na alfabetização, sem vê-lo trocar os dentinhos de leite, por ter perdido dois anos da sua vida e quantos mais que nunca mais voltarão.

Seus filhos choram todos os dias, como todos os filhos desta pátria, nossa mãe gentil, escravizada por corsários. 

Eu queria poder pegar em suas mãos, Débora, te abraçar como um parente, um membro da família, te visitar, tomar um café, mas o Alexandre de Moraes proibiu visitas, te colocou na tornozeleira e só permite o acesso dos advogados. 

Que, em sua prisão domiciliar, ao menos você possa resgatar parte desse tempo perdido longe da família.

Nós, nós estaremos nas ruas, nas redes, em todo lugar, pedindo por sua anistia e a de tantos inocentes. Vamos deixar de ser manés, Débora, e espero em breve poder ir à inauguração do seu salão de beleza, nossa doce cabeleireira. Passe aquele batom vermelho nos lábios; vai ser uma festa linda, com certeza, um pipoqueiro, um palhaço, um vendedor de picolé, com velhos e crianças brincando. Até o mendigo da esquina, curioso, vai correr lá para ver.

Por @claudio_dantas_

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Sérgio Junior
Sérgio Junior
Sérgio Júnior é um escritor e pensador brasileiro, graduado em artes da teologia, membro n°23 da Academia Internacional de Literatura Brasileira de NY (AILB).
Um romancista ficcional, analista de cenários sociais, poeta e filósofo.
Em 2021 e 2022, disputou os prêmios de destaque literário pela Focus Brasil na AILB, idealizado por Nereide Lima e na premiação "Melhor do Brasil na Europa ", pela revista "High Profile Magazine" na Inglaterra, por causa do sucesso do livro "Eu no seu funeral" lançado pela CRV editora no Paraná.

Recentemente, Sérgio Júnior tem sido notícia em vários portais na internet , por seu livro " O SEGREDO DOS NEGROS VENCEDORES " lançado em 2023.

Site do autor na Amazon.

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