
Enquanto líderes mundiais discutem inteligência artificial, transição energética ou o colapso climático iminente, o presidente do Brasil assume um papel absolutamente original na diplomacia internacional: o de vendedor oficial de carne. Não se trata de uma metáfora, mas de uma missão presidencial concreta, com passagens pagas pelo contribuinte, hospedagem cinco estrelas e o tradicional aceno a bordo do jato presidencial. Lula da Silva, acompanhado de sua onipresente primeira-dama Janja, voa ao Japão para representar não o povo brasileiro — mas, na prática, os interesses comerciais dos irmãos Batista, os açougueiros bilionários e confessos arquitetos de um dos maiores esquemas de corrupção da história da humanidade tropical.
A picanha, aquela prometida como símbolo messiânico da reconstrução nacional, agora é içada ao céu da geopolítica global, amarrada por um cordão metafórico ao avião presidencial, enquanto o povo — faminto, hipnotizado e enganado — corre atrás do boi. A imagem é quase poética, não fosse trágica.
No plano factual, tudo é ainda mais carnudo. A JBS S.A., império dos irmãos Batista, se tornou a maior processadora de carnes do planeta, com presença em mais de 20 países e controle de quase um terço das exportações brasileiras de carne bovina. Mas não fizeram isso sozinhos. Entre 2005 e 2014, os governos do PT injetaram mais de R$ 10 bilhões na empresa via BNDESPar, com recursos públicos supostamente voltados à internacionalização de empresas nacionais. O resultado? A compra da Swift nos EUA, a expansão agressiva na América Latina, e a transformação dos açougueiros em figurões de Wall Street — tudo sob o olhar cúmplice e camarada do Estado brasileiro.
E como foi financiada essa epopeia bovina? Com propina, claro. Segundo a delação premiada dos próprios irmãos Batista, a JBS distribuiu mais de R$ 500 milhões em propinas a mais de 1.800 políticos de diversos partidos, mas com ênfase generosa no PT, a quem chamavam carinhosamente de “o partido mais caro”. Em 2017, firmaram acordo de leniência de R$ 10,3 bilhões com o Ministério Público Federal, além de sanções nos EUA pela violação de leis anticorrupção. Um detalhe saboroso: mesmo após esse escândalo global, a JBS continuou a ser contratada por órgãos públicos e a influenciar políticas econômicas com a mesma desenvoltura de sempre.
E é nesse contexto que Lula, com um sorriso bovinamente sereno, embarca rumo ao Japão para vender a carne — não ao povo brasileiro, que mal consegue pagar os R$ 80 o quilo da picanha prometida, mas sim ao consumidor estrangeiro. O mercado interno, aquele mesmo que acreditou no slogan “vai voltar a ter churrasco no fim de semana”, hoje vive de osso, salsicha e esperança reciclada em redes sociais. O poder aquisitivo derrete mais rápido que gordura na grelha, enquanto o governo celebra recordes de exportação que em nada aliviam a realidade de quem vive do salário mínimo ou da aposentadoria carcomida pela inflação.
A situação é tão absurda que nos leva a um dilema shakespeariano e bovinamente nacional: Lula trabalha para o povo brasileiro, ou trabalha para os irmãos Batista? Porque se há um monopólio da carne no país — e ele existe —, ele foi construído com dinheiro público, corrupção endêmica e apoio político direto do partido que hoje ocupa o Planalto. E quando o presidente se torna garoto-propaganda de um setor dominado por criminosos confessos, não estamos diante de uma política de fomento, mas de um teatro farsesco em que a República se ajoelha diante do açougue.
Lula não é mais o operário que venceu o sistema. Ele é agora o mascotinho gourmet da JBS, o dealer oficial da carne, embaixador da proteína, atravessando os céus em nome de um churrasco que o povo não come. A farsa da picanha revela, em sua gordura marmorizada, a anatomia perfeita da nova política brasileira: um corte nobre para poucos, sustentado por muitos, e vendido por quem prometeu justiça social.