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A República na Cama: Crônica de uma Suruba Institucional

Entre anulações convenientes, moral seletiva e a eterna escolha do menos pior

Hermes Magnus
Por: Hermes Magnus
02/03/2026 às 09h42
A República na Cama: Crônica de uma Suruba Institucional
IA - HM

Dizem que Brasília é a capital da República. Outros sustentam que é a capital da metáfora. Porque, no fim das contas, o que move aquele planalto não é apenas o vento seco do cerrado, mas a brisa permanente do “dizem que”. Dizem que havia festas. Dizem que nelas se encontravam os que discursam contra o sistema e os que juram defendê-lo. Dizem que havia champanhe, tapetes persas, risadas discretas e silêncios muito caros. E dizem, sobretudo, que câmeras nunca existiram — o que, convenhamos, é a única parte que ninguém parece acreditar com muita convicção.

Não é preciso afirmar nada. Basta observar o teatro. Quando um ministro anula provas que atingem o “amigo do amigo do meu pai” — esse personagem quase folclórico da República — o país inteiro se divide em duas categorias: os que descobrem subitamente o garantismo jurídico e os que, até ontem, eram garantistas mas agora preferem o justiçamento moral. O rito é sagrado quando me convém; é uma farsa quando me contraria. Alice no País das Maravilhas teria inveja dessa elasticidade hermenêutica.

E eis que o “terrivelmente evangélico”, expressão que já nasceu como ironia pronta, junta-se ao coro das anulações. Não por fé, naturalmente, mas por técnica. Tudo técnico. Tudo dentro dos conformes. O Direito, essa entidade pura e imaculada, pairando acima das paixões humanas como se fosse um anjo togado — embora, curiosamente, sempre desça à Terra quando o caso envolve alguém muito bem relacionado.

Enquanto isso, à direita da cama e à esquerda da cama, a mesma coreografia. Trocam-se os discursos, mas preserva-se a coreografia. A direita denuncia a devassidão moral; a esquerda denuncia o autoritarismo estrutural; ambos frequentam o mesmo salão quando a música toca baixo e os garçons sabem guardar segredo. A suruba institucional — e mantenhamos a palavra, porque há palavras que explicam melhor do que tratados — não é um acidente. É um método. Não de prazer, mas de poder.

O país então descobre que está polarizado. Polarizado entre os que pecam com versículos e os que pecam com manifestos. Entre os que rezam antes da decisão e os que citam Foucault depois dela. A indignação é sempre sincera, desde que dirigida ao adversário. Quando atinge o aliado, transforma-se em silêncio respeitoso, quase religioso.

Há quem jure que não existem imagens. Que não há gravações. Que a Polícia Federal nada sabe. Vamos acreditar que não há nada, claro. A República funciona melhor quando acreditamos. Mas o medo difuso — esse sim — é visível. Não o medo do eleitor, que já perdeu a capacidade de se surpreender, mas o medo interno, aquele que faz com que todos falem alto em público e cochichem em privado.

E então a direita volta às ruas. Bandeiras, hinos, discursos inflamados. O povo animado. A esperança reciclada. Como se a cada ciclo eleitoral o Brasil inaugurasse uma nova temporada de redenção nacional. Mas, no fundo, a escolha continua a mesma: o menos pior. Não há heróis, apenas gradações de desgaste. Não há ruptura, apenas revezamento.

Talvez o verdadeiro escândalo não sejam as festas — reais ou imaginadas — mas a naturalização do espetáculo. O eleitor já não pergunta se há promiscuidade entre poder político, jurídico e econômico. Ele apenas tenta adivinhar qual grupo está melhor posicionado na coreografia atual.

E assim seguimos, convictos de que vivemos uma guerra ideológica histórica, quando talvez estejamos apenas assistindo a uma disputa por quem controla o camarote. À direita ou à esquerda da cama, pouco importa. O lençol é o mesmo. E a República, sempre muito pudica nos discursos, continua extremamente flexível nos bastidores. 

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Hermes Magnus
Hermes Magnus
Olá, sou conhecido como o denunciante que fez os políticos verem o sol nascer quadrado pela primeira vez na história do Brasil! Com um apito na mão e um senso de humor inabalável, estou por aqui para garantir que a verdade sempre encontre seu caminho, mesmo que isso signifique abalar algumas estruturas. Lembre-se, a transparência é o melhor disfarce!
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