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O caso Orelha e a indústria da comoção seletiva

Quando a comoção é segura, rentável e não exige enfrentar o sistema

Hermes Magnus
Por: Hermes Magnus
02/02/2026 às 12h16 Atualizada em 02/02/2026 às 12h27
O caso Orelha e a indústria da comoção seletiva

O cão Orelha foi gravemente ferido. O crime é real, brutal, injustificável. Quatro adolescentes, oriundos da classe média alta, protagonizaram um ato de violência que chocou o país. A comoção foi imediata, massiva, transversal. Manchetes, campanhas, lágrimas públicas, indignação em cadeia. O Brasil parou.

Mas é precisamente quando o país “para” que convém perguntar: por quê?

Todos os dias, neste mesmo país, pessoas — inclusive crianças — são vítimas de violência extrema, tortura, estupro, assassinato, abandono. Todos os dias. Sem comoção nacional. Sem campanhas virais. Sem celebridades em prantos. Sem hashtags. O sofrimento humano, sobretudo quando pobre, periférico e estatisticamente previsível, já não mobiliza o espetáculo moral.

A dor do animal, por outro lado, é segura. Politicamente neutra. Não exige enfrentamento estrutural, não implica discutir desigualdade, falência do sistema penal, seletividade da Justiça ou hipocrisia institucional. Indignar-se por um cão é confortável. É a indignação que não cobra nada.

Não se trata — e isso precisa ficar claro — de minimizar ou relativizar a violência contra animais. Maus-tratos são crime e devem ser punidos com rigor. O ponto é outro: a hipervalorização emocional de determinados casos funciona como cortina de fumaça, desviando o olhar daquilo que realmente compromete a vida em sociedade: a impunidade generalizada.

Porque a verdade incômoda é esta: a mesma legislação que agora impede que esses adolescentes enfrentem consequências penais severas por crueldade contra um animal é a mesma que protege autores de crimes hediondos, escudados por um sistema que confunde garantismo com complacência e civilização jurídica com irresponsabilidade institucional.

O problema não é a falta de leis. O Brasil legisla compulsivamente. O problema é a ausência de leis severas aplicadas com consistência, sem distinção de classe, idade conveniente ou capital simbólico. Sem isso, qualquer comoção é apenas teatro.

E teatro, como se sabe, rende audiência.

Ao final, o caso Orelha corre o risco de se tornar exatamente isso: um espetáculo lucrativo. Influencers engajados, ativistas de ocasião, políticos em gestação — todos explorando a dor alheia como moeda emocional. Likes, seguidores, visibilidade, doações, capital político. Um mercado inteiro orbitando um corpo ferido.

O cão Orelha, nesse contexto, deixa de ser apenas vítima da violência direta. Torna-se também vítima da ausência de uma lei verdadeiramente implacável — e, pior, trampolim moral para canalhas que jamais se mobilizam diante da dor humana cotidiana, mas descobrem súbita sensibilidade quando a indignação é rentável e segura.

Talvez a maior crueldade não esteja apenas no ato que feriu o animal - deixando como a única solução a eutanasia - mas no sistema que transforma a tragédia em espetáculo e a justiça em retórica vazia.

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Hermes Magnus
Olá, sou conhecido como o denunciante que fez os políticos verem o sol nascer quadrado pela primeira vez na história do Brasil! Com um apito na mão e um senso de humor inabalável, estou por aqui para garantir que a verdade sempre encontre seu caminho, mesmo que isso signifique abalar algumas estruturas. Lembre-se, a transparência é o melhor disfarce!
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