
No Brasil, a democracia é um esporte de torcida organizada. Não se trata de escolher representantes; trata-se de aderir a um culto. O voto não é instrumento de fiscalização do poder — é rito de consagração. Uma vez ungido o escolhido da temporada, instala-se o dogma: fora dele não há salvação. Questionar é heresia. Divergir é apostasia. Pensar é pecado mortal.
A lógica é simples e profundamente teológica. Se Lula é santo, os críticos são hereges. Se Bolsonaro é mito, os dissidentes são traidores. Não há meio-termo, não há espaço para o sujeito que ousa dizer: “Talvez haja outra alternativa.” Alternativa, no Brasil, é sinônimo de traição. O pensamento independente virou atividade clandestina. A moderação virou suspeita. A dúvida virou crime moral.
Curioso é que ambos os polos acusam o outro de fanatismo enquanto reproduzem, com invejável simetria, a mesma arquitetura mental. É um país que conseguiu transformar disputa política em guerra escatológica. Não se discute política pública; discute-se pureza ideológica. Não se avaliam resultados; avaliam-se fidelidades. O critério não é competência — é devoção.
E enquanto a plateia debate quem é o verdadeiro messias, a engrenagem real segue funcionando com precisão suíça tropical: fundo partidário bilionário, emendas parlamentares cada vez mais opacas, loteamento institucional, cabides de emprego travestidos de governabilidade. A República tornou-se uma sofisticada máquina de distribuição de lealdades. Quem chega ao poder não governa apenas — ocupa. E quem é ocupado passa a defender o ocupante com a energia de quem protege o próprio salário.
Nasce então a figura central do sistema: o funcionário fiel ao deus reinante. Não é preciso corrupção explícita; basta alinhamento. Basta saber quem o nomeou. A meritocracia cede lugar à teocracia administrativa. A estabilidade, que deveria proteger o interesse público, transforma-se em blindagem do grupo político dominante. E a alternância de poder vira apenas alternância de clientelas.
O problema do Brasil nunca foi simplesmente direita ou esquerda. Essa é a embalagem, o marketing, o rótulo para consumo das massas. O problema estrutural é a profissionalização do poder como negócio. Um negócio que atravessa partidos, ideologias e gerações. Um negócio que sobrevive a escândalos, CPIs, operações policiais e discursos inflamados. Um negócio resiliente, adaptável, quase hereditário.
Há casos em que a política assume feições dinásticas com naturalidade constrangedora. Filhos, esposas, irmãos, sobrinhos — a República vira árvore genealógica. Em alguns núcleos, a sucessão parece disputa medieval. Não falta quem brigue por herança política com fervor quase religioso. É a versão tropical das disputas teológicas: quem herdará o manto? Quem será o legítimo intérprete do legado? Sunitas e xiitas de palanque.
E o eleitor? O eleitor é convocado a escolher qual divindade prefere adorar naquele ciclo eleitoral. Não se pede reflexão estrutural; pede-se adesão emocional. A crítica interna é punida com exílio virtual. O cancelamento substitui o debate. O algoritmo faz o resto.
Democracia, em tese, é pluralismo competitivo. No Brasil, ela se aproxima perigosamente de um monoteísmo alternado. A cada quatro anos troca-se o altar, mas mantém-se a liturgia. E assim seguimos, acreditando que a salvação nacional depende do próximo ungido, enquanto a engrenagem — essa sim verdadeiramente organizada — agradece a distração.
Talvez o verdadeiro tabu brasileiro não seja criticar um político específico. Talvez seja admitir que o sistema inteiro funciona melhor para si mesmo do que para o país.
Mas isso, claro, seria heresia demais.