
A recente viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Japão e Vietnã, iniciada em 24 de março, colocou o Brasil em destaque na Ásia. O objetivo, segundo o Planalto (15/03/2025), é abrir mercados para produtos como carne bovina e suína e fortalecer laços comerciais. Mas, enquanto as manchetes falam de acordos e números, os efeitos reais nas comunidades locais — como pequenos agricultores e trabalhadores da indústria — ainda aparecem pouco. A agenda da primeira-dama, Janja, no Japão, também levanta perguntas sobre o que está sendo deixado de lado na diplomacia.
A pauta da viagem
No Japão, entre 24 e 27 de março, Lula celebrou 130 anos de relações diplomáticas e participou de um fórum com 500 empresários, mirando exportações agropecuárias, conforme a BBC News Brasil (24/03/2025). No Vietnã, de 27 a 29, a meta é elevar o comércio de US$ 7,7 bilhões em 2024 para US$ 15 bilhões até o fim de 2025, segundo o Planalto (15/03/2025). O Vietnã já é o quinto destino do agronegócio brasileiro, e o Japão, nono maior investidor no país, com US$ 35 bilhões até 2023. Acordos com o Mercosul e a venda de 15 a 20 aviões da Embraer, noticiada pelo Terra (24/03/2025), também estão na mesa. Só que resultados concretos, como a liberação de carne pelo Japão, ainda dependem de negociações técnicas.
Pequenos agricultores na espera
Os pequenos agricultores, que formam 70% das propriedades rurais do Brasil, per IBGE (Censo 2017), poderiam se beneficiar com mais exportações de carne, café e celulose. Mas a comitiva de Lula, com gigantes como JBS e BRF, segundo o Metrópoles (22/03/2025), sugere que as grandes empresas devem liderar os ganhos. A Embrapa (2023) explica que abrir mercados asiáticos aumenta a demanda, mas os pequenos produtores enfrentam barreiras: falta escala, infraestrutura e certificações exigidas por países como o Japão. A Oxfam Brasil (2024) alerta que esses acordos tendem a concentrar renda, oferecendo aos pequenos apenas empregos temporários nas cadeias maiores.
No Vietnã, o café brasileiro é destaque, mas pequenos cafeicultores do Sul de Minas, por exemplo, precisam de apoio como cooperativas para competir, algo que não aparece nos planos divulgados. O Valor Econômico (30/04/2024) cita Lula falando em parcerias com o Japão para recuperar pastagens, mas os detalhes ainda não saíram do papel.
Trabalhadores da indústria: ganhos limitados?
Na indústria, a viagem pode trazer frutos. O Japão investe em setores como automotivo, e a venda de aviões da Embraer pode gerar empregos em São José dos Campos (SP). Só que esses benefícios ficam em polos industriais como São Paulo e Paraná, enquanto outras regiões, como o Nordeste, mal entram na conversa, aponta a Folha de S.Paulo (23/03/2025). Sindicalistas da CUT e Força Sindical acompanharam Lula, mas os acordos assinados — em ciência e combustíveis sustentáveis — não detalham vagas ou condições de trabalho. O Dieese (2023) avisa que mais exportações podem pressionar salários, caso as empresas cortem custos para competir.
O que fica fora das manchetes
A cobertura, como no Canal Rural (24/03/2025) e na Veja (24/03/2025), foca em números grandes e encontros oficiais. Mas os impactos locais — como o custo de vida subindo com a exportação de alimentos ou a inclusão de pequenos produtores — quase não aparecem. A Reuters (23/03/2025) vê a visita como mais simbólica do que prática por enquanto, o que explica a falta de detalhes. A Oxfam (2024) reforça que políticas externas assim costumam priorizar exportadores grandes, deixando as comunidades em segundo plano.
A agenda de Janja e a transparência
A primeira-dama, Janja, chegou ao Japão em 18 de março, uma semana antes de Lula, mas só detalhou compromissos no dia 22, como um encontro com mulheres brasileiras, segundo a Folha de S.Paulo (18/03/2025). Ela foi à Expo 2025 em Osaka, a convite da ApexBrasil, e tratou de temas como violência de gênero, mas sem divulgação ampla, relata a Veja (22/03/2025). Criticada por falta de clareza, Janja disse à BBC News Brasil (25/03/2025) que economizou ao viajar com a equipe precursora. A oposição pediu explicações na Câmara, per Rádio Pampa (21/03/2025), já que ela não tem cargo formal. Isso mostra que partes da diplomacia, como o apoio aos 211 mil brasileiros no Japão (Planalto, 15/03/2025), ficam à margem.
O que vem por aí
A viagem abre portas, mas os efeitos em pequenos agricultores e trabalhadores da indústria ainda são uma incógnita. Sem planos claros de inclusão, os ganhos podem ficar com os grandes, enquanto comunidades locais esperam mais detalhes. A agenda de Janja, pouco explorada, reflete uma diplomacia que foca no palco principal e deixa os bastidores em silêncio. Resta ver se os próximos passos vão trazer respostas.