
Sim, porque enquanto discutimos se foi o ovo ou a galinha, o ignorante já está na terceira reencarnação dando opinião no X (antigo Twitter), fazendo vídeo no TikTok com cara séria e dedo em riste, dizendo que “deu ruim na civilização” — e ele tem razão, embora não saiba por quê. A ignorância é democrática, inclusiva, transideológica. Ela não escolhe partido, só Wi-Fi.
E aí vem o progressista gourmet, armado com seus termos em inglês e suas estatísticas do Guardian, pronto para salvar o mundo com uma thread de 20 tweets, cada um mais empático e autocentrado que o outro. Do outro lado, o reacionário 5G, com a Bíblia numa mão e um meme de Zap na outra, declara guerra cultural como se fosse uma missão divina. E no meio disso tudo, o ignorante — aquele ser anfíbio — mergulha ora num discurso, ora no outro, sempre com a mesma convicção vazia e a mesma certeza barulhenta.
Mas é claro, ninguém quer ser chamado de ignorante. Ignorante é sempre o outro. O racista é sempre “eles”, o preconceituoso é “aquela geração”, o manipulador é “a grande mídia” ou “as universidades doutrinadoras”. Nunca é o sujeito no espelho — até porque o espelho já está ocupado pela selfie com filtro. E assim, a ignorância segue livre, leve e solta, como uma entidade superior, desobrigada de pagar impostos ou prestar vestibular.
O problema não é que a ignorância domine o debate. O problema é que ela é o debate. Porque quanto mais raso o argumento, mais viral ele se torna. A inteligência exige pausa, contexto, nuance — ou seja, tudo que o algoritmo odeia. E assim vamos indo, entre lives, lacrações e cancelamentos, tentando descobrir quem foi o primeiro: o ignorante ou o influenciador digital.