
Há algo de quase comovente no corporativismo do Judiciário brasileiro. Se fosse um esporte olímpico, os procuradores e ex-procuradores já teriam batido recordes mundiais de sincronia. Eles morrem abraçados uns pelos outros com uma lealdade que nem o Código Penal consegue abalar. O Ministério Público, então, mais parece uma sociedade secreta onde a regra é simples: se um cai, todos caem juntos, mas ninguém solta a mão de ninguém.
O curioso é que, quando falamos de políticos, esse tipo de comportamento já faz parte do folclore nacional. A política é um grande festival onde ladrões defendem ladrões, ideólogos protegem ideólogos, e no final todos saem impunes e rindo da nossa cara. Mas a Justiça – ah, a Justiça! – essa deveria ser um templo de imparcialidade, certo? Errado. A toga pode até ser preta, mas dentro dela pulsa um coração repleto de lealdades inquebrantáveis e um corporativismo que faz inveja a qualquer sindicato.
O Caso Paulo Gonet e o Conservadorismo Sob Medida
E falando em lealdades, nada melhor do que ilustrar esse fenômeno com um caso recente que poderia muito bem-estar em um livro de sátiras políticas. Em 2019, Bia Kicis, então uma das principais vozes do bolsonarismo, defendia com entusiasmo a nomeação de Paulo Gonet para a Procuradoria-Geral da República (PGR). Sua justificativa? Um pacote pronto para agradar o público conservador:
“Paulo Gonet é conservador raiz, cristão, sua atuação no STF nos processos da Lava Jato foi impecável. Ele não tem capivara. E o fato de ter sido sócio de Gilmar Mendes no IDP em nada interferiu em sua atuação…”
Sim, a própria Bia Kicis, a mesma que hoje se vê em uma posição desconfortável, vendia Paulo Gonet como o verdadeiro bastião da direita. Mas Bolsonaro, que naquela época ainda acreditava que tinha controle sobre as indicações, resolveu nomear Augusto Aras, talvez pensando que estava garantindo um aliado mais confiável.
O mais irônico? Gonet não foi escolhido em 2019, mas acabou chegando à PGR anos depois, pelas mãos de Lula, e sua grande estreia foi denunciar Bolsonaro e seus aliados. Eis o plot twist digno de novela mexicana: aquele que um dia foi vendido como defensor do bolsonarismo agora surge como seu algoz.
O que aprendemos? Ora, que no Brasil tudo se vende, e compra quem quer. A diferença entre o mercado político e o mercado judiciário é que um vende ilusões, e o outro vende… bem, ilusões revestidas de formalidade e citações ao artigo 37 da Constituição.
Bia Kicis, que um dia defendeu Gonet, agora tem que lidar com o fato de que o conservador cristão virou o carrasco de Bolsonaro. E, no Brasil, ser ingênuo a esse ponto na política deveria ser crime inafiançável.
Augusto Aras: O Esquerdista Tático
Mas não podemos esquecer o protagonista da tragédia anterior, Augusto Aras. Sim, ele mesmo, aquele que Bolsonaro escolheu por acreditar que teria um PGR alinhado ao seu governo. Só que Aras, antes de tudo, era um esquerdista ao extremo, com um histórico de proximidade com o petismo, opiniões progressistas e um perfil nada alinhado ao conservadorismo.
Bolsonaro, talvez por pragmatismo ou por influência de conselheiros mal informados, resolveu apostar em Aras, achando que estava garantindo um aliado. O resultado? Aras nunca bateu de frente com o sistema, mas também nunca salvou Bolsonaro de nada. Saiu ileso, com uma biografia intacta e pronto para novos voos, enquanto o governo Bolsonaro agora enfrenta um novo PGR que, ironicamente, foi promovido pela própria direita como “cristão conservador”.
Ou seja, a velha armadilha: achar que alguém dentro do sistema vai trabalhar contra o próprio sistema.
A Fábrica de Magistrados e a Cultura do Apadrinhamento
Mas o problema vai além de Aras. No Brasil, o Judiciário não é um conjunto de indivíduos neutros, mas uma máquina de fabricação de agentes políticos camuflados. O crime organizado, os partidos políticos e os grupos de influência não apenas observam quem está subindo na carreira jurídica – eles cultivam esses indivíduos desde a universidade, garantindo que sejam ideologicamente compatíveis com seus interesses.
Como funciona isso? Simples:
1. Universidades aparelhadas – A academia já forma novos juristas sob um viés ideológico pesado. A maior parte dos professores que dominam as cátedras são alinhados a uma visão específica de mundo, garantindo que seus alunos absorvam certos dogmas antes mesmo de pisarem nos corredores dos tribunais.
2. Indicações estratégicas – Quando um desses alunos promissores desponta, ele não cresce por mérito. Ele é guiado, orientado e colocado nos lugares certos por padrinhos influentes. Advogados, juízes e ministros ajudam a impulsionar carreiras e abrir portas, sempre garantindo que a pessoa certa suba na hierarquia judicial.
3. Promoções por afinidade – Um juiz que toma as decisões “certas” ganha mais espaço. Um procurador que denuncia os alvos certos recebe mais prestígio. O sistema recompensa aqueles que seguem o roteiro e marginaliza quem ousa desafiar a ordem estabelecida.
4. Laços com o crime organizado e grupos de poder – O crime organizado não quer apenas corromper juízes e promotores depois que eles assumem o cargo. Isso seria arriscado. O crime prefere criar seus próprios juristas desde o início, garantindo que, quando chegarem ao poder, já estejam comprometidos ideologicamente e nem precisem de subornos diretos.
Conclusão: A Justiça Não é Justa, É Estratégica
Se o Brasil tivesse um Judiciário independente e neutro, os fatos falariam por si mesmos, e cada caso seria julgado sem interferências. Mas o que temos hoje é um sistema onde as decisões judiciais são previsíveis de acordo com quem está envolvido, e onde um magistrado pode mudar de opinião dependendo do que lhe for mais conveniente.
Enquanto isso, o brasileiro comum segue assistindo ao espetáculo, torcendo para que pelo menos uma das peças desse jogo sujo seja movida a seu favor. Mas a verdade é que o tabuleiro já está montado há muito tempo, e as jogadas são decididas nos bastidores, antes mesmo de o jogo começar.
E se tem algo que essa história nos ensina, é que, no Brasil, nada é o que parece.
Bia Kicis pode ter acreditado que estava recomendando um PGR alinhado ao conservadorismo, Bolsonaro pode ter achado que Aras seria um escudo contra a esquerda, e muitos podem pensar que o Ministério Público age de forma neutra e independente. Mas, no fim do dia, o que temos é um sistema blindado, onde os membros se protegem e garantem que nada saia do controle do establishment.
E assim segue o Brasil: com uma Justiça que não é cega, mas que sabe muito bem para quem deve fechar os olhos.