O RECADO DE VANCE EM MUNIQUE É UM ALERTA AO BRASIL E AO MUNDO
(Sobre Ataques às Liberdades)
"Chamam tudo que não gostam de "desinformação" e "fake news" para impedir que outros tenham voz."
O republicano James David Vance, conhecido como J. D. Vance, é a terceira pessoa mais jovem a ocupar o cargo de vice-presidente dos Estados Unidos. Aos 40 anos, o senador de Ohio sempre foi afiado nas palavras e até chegou a críticar Donald Trump, no passado.
Mantendo a fama, o vice-presidente dos Estados Unidos surpreendeu a todos presentes na Conferência de Segurança de Munique - Alemanha, quando confrontou a Europa Sobre Ataques às Liberdades individuais.

Adotando um tom firme e ao mesmo tempo irônico, Vance subiu ao palco em tom de maestro e deu ama aula de como discursar. Pontuou cada problema com exemplos e criticou elegantemente o que chamou de "retrocesso". O pior e o que parece que mais chocou os europeus, foi ouvir Vance dizer que não se preocupava tanto com Rússia ou China, mas com o inimigo interno.
A repercussão foi estrondosa na Europa e muitos parlamentares alemães se manifestaram, contra e a favor das palavras e da postura de Vance.
O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, chamou o discurso de Vance de “inaceitável”. “Se eu entendi direito, ele comparou as condições em partes da Europa com as de regimes autoritários. Isso é inaceitável” (CNN).
“Eu me oponho fortemente à impressão que o vice-presidente Vance criou de que as minorias estão sendo reprimidas ou silenciadas na nossa democracia”, afirmou o ministro.
No Reino Unido, o porta-voz de relações exteriores do Partido Liberal Democrata, Calum Miller, disse em entrevista ao jornal The Independent: “O Reino Unido não aceitará sermões sobre liberdades políticas do acólito de um presidente que tentou minar a democracia americana e agora elogia [o ditador russo, Vladimir] Putin. O povo britânico não será engando por essa hipocrisia”, concluiu.
Já Ben-Habib, ex-deputado do Parlamento Europeu e ex-integrante do partido de direita nacionalista Reforma Unido, em entrevista ao canal Talk TV, elogiou os comentários de Vance sobre o “retrocesso da liberdade de expressão” na Europa.
“Se você não tem permissão para ofender os outros por meio da manifestação das suas opiniões, por mais terríveis que sejam, esse é o fim da democracia”, concluiu.
Abaixo, a tradução do discurso na íntegra:

TRANSCRIÇÃO DO DISCURSO
"Senhoras e senhores, espero que essa não tenha sido a última salva de palmas que receberei hoje.
Nos reunimos nesta conferência para discutir segurança, e normalmente nos referimos a ameaças externas. Vejo muitos grandes líderes militares aqui presentes. A administração Trump está preocupada com a segurança da Europa e acredita que podemos chegar a um acordo razoável entre Rússia e Ucrânia. Também acreditamos que, nos próximos anos, a Europa precisa assumir um papel maior na defesa de si mesma.
No entanto, a ameaça que mais me preocupa em relação à Europa não vem da Rússia, da China ou de qualquer outro ator externo. O que me preocupa é a ameaça interna: o recuo da Europa em relação a alguns de seus valores fundamentais, valores que são compartilhados com os Estados Unidos.
Recentemente, um ex-comissário europeu apareceu na televisão e expressou satisfação ao saber que o governo da Romênia havia anulado uma eleição inteira. Ele advertiu que, se as coisas não saírem como planejado, o mesmo poderia acontecer na Alemanha. Declarações tão levianas são chocantes para os americanos.
Por anos, fomos informados de que tudo o que financiamos e apoiamos é em nome dos nossos valores democráticos compartilhados. Desde nossa política para a Ucrânia até a censura digital, tudo é apresentado como uma defesa da democracia. Mas quando vemos tribunais europeus cancelando eleições e autoridades ameaçando anular outras, devemos nos perguntar se estamos mantendo padrões adequadamente elevados.
A Ameaça à Liberdade na Europa
Digo "nós" porque acredito que estamos no mesmo time. Devemos fazer mais do que falar sobre valores democráticos; precisamos vivê-los.
Dentro da memória viva de muitos nesta sala, a Guerra Fria colocou defensores da democracia contra forças muito mais tirânicas. E qual era o lado que censurava dissidentes, fechava igrejas e cancelava eleições? Eles eram os mocinhos? Certamente não. E graças a Deus, eles perderam a Guerra Fria.
Eles perderam porque não valorizavam nem respeitavam as bênçãos da liberdade — a liberdade de surpreender, de cometer erros, de inovar, de construir. Descobrimos que não se pode impor inovação ou criatividade, assim como não se pode obrigar as pessoas a pensar, sentir ou acreditar em algo específico.
Infelizmente, ao olhar para a Europa hoje, não está tão claro o que aconteceu com alguns dos vencedores da Guerra Fria.
- Em Bruxelas, a Comissão Europeia ameaça fechar redes sociais durante períodos de instabilidade civil caso detectem conteúdos considerados "odiosos".
- Neste país, a polícia realiza operações contra cidadãos suspeitos de postar comentários antifeministas online, sob o pretexto de combater a misoginia na internet.
- Na Suécia, um ativista cristão foi condenado por participar de queimas do Alcorão, após as quais seu amigo foi assassinado. O tribunal sueco declarou que a lei de liberdade de expressão não garante, e cito, "um passe livre para dizer ou fazer qualquer coisa sem o risco de ofender um grupo".
- No Reino Unido, a regressão dos direitos de consciência colocou as liberdades religiosas na mira. Há dois anos, um veterano do exército foi acusado do "crime" de ficar em silêncio e rezar por três minutos a 50 metros de uma clínica de aborto.
Esse homem, Adam Smith, não bloqueava ninguém, não interagia com ninguém — apenas orava. Quando questionado pela polícia sobre o motivo da oração, ele respondeu que era pelo filho não nascido que ele e sua ex-namorada haviam abortado anos antes. Isso não comoveu os policiais. Ele foi condenado e forçado a pagar milhares de libras em custas judiciais.
Pior ainda, em outubro passado, o governo escocês distribuiu cartas a cidadãos cujas casas ficam dentro de zonas de "acesso seguro", alertando que até mesmo orações privadas em suas próprias casas poderiam ser consideradas crime. O governo ainda incentivou os cidadãos a denunciar seus vizinhos por esse "crime de pensamento".
O Retrocesso Global na Liberdade de Expressão
Infelizmente, os maiores defensores da censura não estão apenas na Europa. Nos EUA, a administração anterior ameaçou e pressionou empresas de mídia social para censurar aquilo que chamavam de "desinformação".
Por exemplo, a teoria de que o coronavírus pode ter vazado de um laboratório na China foi classificada como desinformação e censurada por meses, até que se revelou uma possibilidade legítima. Nosso próprio governo incentivou empresas privadas a silenciar aqueles que diziam a verdade.
Hoje, venho não apenas com uma observação, mas com uma proposta: enquanto a administração Biden trabalhou para silenciar as pessoas, a administração Trump fará exatamente o oposto. Sob a liderança de Donald Trump, podemos discordar das suas opiniões, mas lutaremos para defender seu direito de expressá-las.
Democracia e o Medo da Opinião Popular
Chegamos a um ponto em que a Romênia cancelou os resultados de uma eleição presidencial com base em suspeitas frágeis de interferência russa e pressão dos seus vizinhos europeus. Mas se algumas centenas de milhares de dólares em anúncios digitais de um país estrangeiro podem destruir uma democracia, então essa democracia nunca foi forte para começar.
E eu acredito que suas democracias são muito mais resilientes do que se pensa. Permitir que seus cidadãos falem livremente as fortalecerá ainda mais.
Por isso, é preocupante que, nesta mesma conferência em Munique, legisladores de partidos populistas, tanto de esquerda quanto de direita, tenham sido proibidos de participar dos debates. Precisamos de diálogo, mesmo com aqueles cujas opiniões divergimos.
Na América, percebemos que muitas das vozes que pedem censura não estão defendendo a verdade — estão apenas protegendo seus próprios interesses. Chamam tudo que não gostam de "desinformação" e "fake news" para impedir que outros tenham voz.
A Verdadeira Segurança Democrática
Se esta conferência é sobre segurança, então devemos perguntar: o que exatamente estamos defendendo? Não se trata apenas de números no orçamento militar. A questão mais importante é: qual é a visão positiva que sustenta esta aliança de segurança?
E digo com franqueza: se vocês têm medo da opinião dos seus próprios cidadãos, então não há nada que os EUA possam fazer por vocês.
Não há segurança verdadeira quando se teme as vozes, opiniões e consciências do próprio povo. E se vocês ignoram ou silenciam seus eleitores, então nem mesmo os americanos que elegeram Trump poderão ajudar.
Democracias não podem ser governadas sem mandatos populares. Ignorar as preocupações legítimas da população ou criminalizar opositores não protegerá a democracia — apenas a destruirá.
O direito de voz é sagrado. Ele não pode ser bloqueado por muros burocráticos. Vocês, líderes europeus, têm uma escolha: abraçar a voz do povo ou sufocá-la.
E meu forte conselho é: não tenham medo do futuro. Aceitem o que o povo lhes diz, mesmo quando discordam. Isso fortalecerá suas nações.
Conclusão
A democracia não está nos prédios históricos ou nas grandes instituições, mas no direito de cada cidadão expressar suas opiniões.
Como disse o Papa João Paulo II, um dos maiores defensores da democracia: "Não tenham medo."
Não tenham medo do seu povo, mesmo quando ele discorda de vocês.
Obrigado. Boa sorte a todos vocês. Que Deus os abençoe."
Fica claro que, se na Europa, conhecida pela sua dedicação em prol dos direitos humanos (valores compartilhados pelos EUA) e das liberdades individuais (embora em retrocesso segundo Vance), o tom de aviso foi tão contundente e com exemplos claros, qual não seria o aviso ou sanção que Vance e Trump preparam para o Brasil.
Há inúmeras frases no discurso que parece que o vice-presidente norte-americano está discursando no plenário do congresso brasileiro.
Em tempo, uma pincelada aos autoritários brasileiros de plantão:
"A democracia não está nos prédios históricos ou nas grandes instituições, mas no direito de cada cidadão expressar suas opiniões." J. D.Vance