
A política brasileira, essa tragicomédia tropical, nunca decepciona. Se um dia o indulto presidencial serviu como trunfo de Getúlio Vargas na sua disputa com Monteiro Lobato, hoje se tornou apenas um capricho mal justificado, um insulto presidencial, um botão de “reset” para amigos e aliados, que os poderosos apertam conforme sua conveniência. Se antes era um instrumento raro e estratégico, agora virou uma festa aberta onde o baile da impunidade segue ao som dos tambores da conveniência.
Jair Bolsonaro, em um ato que deveria ser supremo, indultou Daniel Silveira. O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, ignorou solenemente o gesto e simplesmente “andou e andou…” como se fosse apenas mais um detalhe incômodo a ser varrido para debaixo do tapete do ativismo judicial. Esse é o Brasil das ambiguidades, o país que sempre teve duas caras. No final das contas, o que vale não é a letra da lei, mas a preferência do intérprete da vez. O mesmo indulto que já salvou bandidos de estimação de um lado, pode ser considerado um ultraje se vier de um simples partidário de outro. Justiça? Só se for para os tolos que ainda acreditam nela.
Oswaldo Aranha, por exemplo, encarna perfeitamente essa síndrome nacional. Esse diplomata que um dia negou entrada a judeus desesperados fugindo da carnificina nazista – uma mancha histórica na política externa brasileira – foi o mesmo que garantiu o quórum para a criação do Estado de Israel. Se isso não é uma das maiores ironias da diplomacia brasileira, então nada mais é. Quantos judeus poderiam ter sido salvos se o Brasil, em vez de se alinhar ao antissemitismo institucionalizado da época, tivesse aberto suas portas? Selma Moos que o diga ????. Quantos judeus pereceram porque um punhado de burocratas brasileiros achou por bem manter a “pureza racial” do país? O mesmo Brasil que negou refúgio a quem precisava, depois se vangloriou de ter ajudado a criar um Estado judeu. Bater e soprar, sempre ao sabor das conveniências.
E falando em conveniência, o Brasil continua sendo a terra da oligarquia. Só que ela mudou de figurino. Se antes eram os barões do café, os coronéis do sertão e os banqueiros da Faria Lima que mandavam e desmandavam, hoje a aristocracia nacional tem novos rostos. O funkeiro milionário que ostenta colares de ouro enquanto propaga a cultura da criminalidade agora senta-se à mesma mesa dos engravatados do alto escalão financeiro. O bicheiro, antes personagem folclórico e marginal, hoje frequenta jantares com ministros e dá pitacos na política nacional. O traficante, outrora temido pelas sombras, agora legisla pelas ONGs e universidades. Mas os banqueiros, esses, continuam lá, sempre bem instalados, cada vez mais ricos e intocáveis.
Não mudou nada? Mudou sim. A oligarquia se diversificou. Agora, em vez de ser só branca e bem vestida, ela tem representantes em todas as castas e tribos. O poder real, no entanto, continua sendo das marionetes: aqueles que movimentam as cordas dos fantoches de Brasília, das cortes judiciais e dos palácios governamentais. Uns chamam de globalismo, outros de plutocracia, mas o nome pouco importa. O fato é que quem tem dinheiro e influência segue mandando no país, enquanto o povão se mata na fila do SUS e se entope de boletos para sobreviver.
E a Justiça, essa entidade etérea que deveria ser cega, continua cumprindo seu papel de cão adestrado da elite. Desde os tempos do Estado Novo até os dias de hoje, nunca falhou em garantir a segurança e a perpetuação dos donos do poder. O que antes era feito com porretes e cassetetes, agora é realizado com canetadas e jurisprudências criadas sob medida. O STF, essa corte suprema que deveria proteger a Constituição, hoje é mais um clube privado onde se decide o futuro do país em jantares regados a lagosta e vinhos importados. E os ministros, fiéis ao ritual da bajulação, abanam o rabo por uma toga aveludada, um cargo internacional ou um título honorário concedido por algum instituto obscuro de um globalista bilionário.
Os tempos mudaram, mas os donos do Brasil continuam os mesmos. Só ficaram mais sofisticados, mais refinados em sua arte de enganar. O país, esse sim, segue sendo uma tragédia com pitadas de pastelão. E os brasileiros, de plateia, assistem ao espetáculo esperando por um final feliz que nunca chega.
Pobre Nação.