
És irrelevante, e esse é o teu superpoder
Ainda me lembro da primeira vez que fui confrontado com a morte em adulto. Foi no dia em que o meu avô faleceu.
Há muita coisa que eu poderia dizer acerca disso, porém, neste artigo, quero concentrar-me num momento específico: quando me debrucei na janela e percebi que nada tinha mudado. De alguma forma, na minha ingenuidade, esperava que o mundo reagisse - os vizinhos parados em solenidade ou até mesmo sinais no céu a reconhecer a sua partida.
Nada. A cerimónia fúnebre estava a decorrer, mas o mundo lá fora continuava o seu momvimento. As pessoas corriam para os seus empregos, contribuindo para que as empresas cumprissem os seus objectivos anuais sem paus nem piedade. Enquanto o meu avô estava a ser enterrado, rodeado pela minha enlutada família e um punhado de amigos, a vida continuava, indiferente à nossa perda.
Duas décadas se passaram desde então, e o que antes parecia uma indiferença cruel agora me surge como a mais profunda libertação.
Sejamos realistas: apenas uma pequena fração da raça humana nos vai chorar quando morrermos. Mesmo para aqueles que sofram, a vida vai para a frente após alguns dias, semanas ou, no máximo meses,. Da mesma forma que vamos para diante depois de perdermos os nossos entes queridos, certo?
Daqui a duas gerações, não existiremos - nem na memória, nem nas conversas. Se tivermos sorte, talvez vivamos como uma recordação ténue durante algum tempo, mas até isso se desvanece rapidamente.
E enquanto cá estivermos? É certo que somos mais importantes enquanto vivos, mas não muito mais. A maior parte das pessoas não pensa em nós a maior parte do tempo - estão demasiado ocupadas com as suas próprias vidas, as suas próprias famílias, as suas próprias preocupações.
A verdade é que apenas uma pequena parte do coração de alguém está reservada para os outros, e esse espaço é normalmente ocupado pelo amor ou pelo ódio. Estes sentimentos fortes, muitas vezes interligados, estão reservados apenas para um par de pessoas nas nossas vidas - as mais próximas de nós.
Tu, eu e todos os outros não estamos nem perto do topo da lista de prioridades da maioria das pessoas. Então, por que não nos tornarmos uma prioridade nas nossas próprias vidas?
Isto não é um apelo ao egocentrismo. Trata-se, sim, de nos concentrarmos no nosso próprio bem-estar, de desenvolvermos uma consciência profunda de quem somos e de escolhermos aquilo de que nos rodeamos. Trata-se também de passar o nosso tempo com os nossos projectos e paixões - coisas que são verdadeiramente importantes para nós.
Também não se trata de um apelo a uma vida descuidada. Pelo contrário, é um convite para viver com intenção - para criar uma vida que tenha sentido porque lhe damos sentido.
Ao fazê-lo, assumimos a responsabilidade pessoal e embarcamos na aventura de sermos fiéis a nós próprios. Aprendemos a decidir o que, se é que alguma coisa tem, relevância na nossa existência fugaz.
E nesse reconhecimento e nessa decisão reside o nosso maior superpoder.