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ESCREVE O TEU TESTAMENTO

O antídoto mais eficaz contra o medo de morrer

Vitor Vicente
Por: Vitor Vicente
16/02/2025 às 14h24 Atualizada em 17/02/2025 às 15h33
ESCREVE O TEU TESTAMENTO
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Como autor profissional e publicado que passa muito tempo com papel e caneta desde a adolescência, sempre acreditei nos benefícios terapêuticos da escrita. Traz clareza, ajuda a processar emoções e proporciona paz de espírito. Escrever acalma-nos - se não for por mais nada, pelo menos pela pausa que nos obriga a fazer enquanto nos concentramos numa única tarefa e libertamos os nossos pensamentos.

No entanto, nunca imaginei que escrever o meu testamento me ajudasse a enfrentar o meu medo da morte - ou, pelo menos, que me permitisse encará-lo com racionalidade.

Sempre vi a morte como uma derrota. Não uma derrota qualquer, mas uma daquelas humilhantes, em que o vencido é obrigado a assinar o certificado de perda.

Certo, admito que é uma derrota. Escrito o meu testamento, pelo menos tenho uma palavra a dizer sobre a minha partida. E, o que é mais importante, recupero a sensação de poder sobre a minha vida.

Cinco vantagens de escrever o testamento

1. A morte torna-se natural - e menos aterrorizante

Desde jovem, eu sempre fui um rebelde. Se não fosse por outra razão, opunha-me ao sistema simplesmente para marcar uma posição. Isso não é necessariamente uma coisa má - promove o pensamento independente e a ousadia. Mas a rebelião pela rebelião também pode transformr-te num tolo, fazendo oposição sem qualquer objetivo real e caindo num tipo diferente de escravidão.

A mortalidade não se enquadra no domínio das coisas que podem ser alteradas. A morte é inevitável. Todos morremos, ponto final. O facto de acreditar ou não numa vida depois da morte é irrelevante - morrer significa que nos fomos, pelo menos do mundo físico.

Percebo que a morte não pareça tão natural como beber água quando se tem sede ou ficar irritado com um vizinho que não limpa a porcaria do cão. Mas é igualmente tão natural. A prova? A morte acontece, independentemente da nossa vontade.

2. Tu podes não aceitar a morte, mas vais admiti-la

Não estou a sugerir que, ao redigir o teu testamento, ficarás subitamente mais alegre com a ideia da morte ou que passarás a fazer desvios no caminho para casa para passares por funerárias só para alegrares o teu dia.

A morte continuará a ser inquietante porque, como toda a gente, não sabes exatamente o que ela implica. Afinal de contas, apenas podemos especular sobre o que acontece ao corpo, à alma ou à consciência.

No entanto, escrever o testamento obriga-te a admitir que a morte é real. E admitir é o primeiro passo para a aceitação.

Como adultos, todos nós aprendemos - às vezes dolorosamente - que há paz na aceitação. E escrever o testamento é, de certa forma, assinar um contrato com a realidade e quesSó tem efeito quando morremos - mas reconhecer esse facto muda a forma como vivemos aqui e agora.

3. Começa a apreciar os pequenos pormenores da vida

Este ponto decorre naturalmente dos anteriores. Depois de interiorizares não só a sua própria mortalidade, mas também a natureza transitória da própria vida, vais notar uma mudança radical na tua perspetiva.

O vizinho barulhento continuará a ser barulhento. Aquele tipo que se recusa a limpar a porcaria do cão? Continua a ser um problema. Mas, de repente, as pequenas alegrias da vida - o som dos pássaros pela manhã, o cheiro do café, a visão do céu ao anoitecer - tornam-se vívidas e significativas.

Muitas pessoas falam em “apreciar as pequenas coisas”, mas poucas compreendem verdadeiramente o seu significado. Aqueles que tiveram experiências de quase-morte certamente o sabem.

Se não enfrentaste a morte de perto, escrever um testamento pode dar-te um vislumbre dessa experiência- sem o trauma.

4. Desenvolve um sentido de urgência

Depois de fazer as pazes com a realidade da morte, começas a ouvir o tique-taque do relógio - não em pânico, mas com racionalidade.

De repente, as coisas que antes te perturbavam parecem insignificantes em comparação com a impermanência da vida.

Os estóicos aconselhavam a visita a um cemitério sempre que nos sentíssemos sobrecarregados por preocupações triviais. Se eu tivesse seguido esse conselho na minha juventude, teria passado metade da minha vida em cemitérios. Essa não é bem a minha ideia de diversão - além disso, terei muito tempo para lá ir quando estiver realmente morto.

Em vez disso, opto por me concentrar no que realmente importa: fazer coisas que tragem sentido, rodear-me de pessoas que interessam perseguir paixões que dão um objetivo à minha vida.

5. Descobres quem realmente se preocupa contigo

Este é talvez o aspeto mais revelador da redação de um testamento.

Não se trata apenas de garantir que os teus desejos sejam honrados depois de morrer - trata-se de reconhecer quem realmente os cumpriria.

Há pessoas boas por aí. Se duvidas disso, pergunta a ti próprio: Quem é que eu me esforçaria por ajudar, mesmo depois de terem morrido? Se tiveres dificuldade em pensar em alguém, talvez seja altura de reavaliares as tuas relações e, mais importante ainda, os teus próprios valores.

Sê fiável. Sê honesto. Deixa de te agarrar a amizades superficiais e a laços familiares forçados que existem apenas por obrigação.

Escrever o teu testamento traz clareza - não apenas sobre a morte, mas sobre a própria vida.

Reflexões finais

Escrever o meu testamento mudou-me. Fez-me deixar de temer a morte e começar a viver plenamente. Não posso prometer que terá o mesmo impacto em ti, mas encorajo-te a tentar.

Deixa de estar permanentemente em pânico. Começa a viver. Escrever o testamento é um exercício que muda a vida. Não muda o facto de morreres, mas vai mudar a forma como a pensas.

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Vitor Vicente
Podcaster e autor Português de 12 livros. Alguns dos seus trabalhos estão traduzidos para Inglês, Espanhol, Húngaro e Polonês. Vive na Irlanda.
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