
Apregoar Carpe Diem fica bem. Atesta liberdade e consciência tranquila. Dois estados de alma (uma vez que ser livre não se trata tanto de um ato civil, mas sim de uma condição espiritual) aparentemente inatingíveis.
Executar Carpe Diem é complicado. Quem entre nós, pecadores, é capaz de abrir uma cova na qual caibam o passado e o futuro, de modo a viver completamente no momento?
Ninguém. Os dias de ontem surgirão – nem que sejam uma aparição intermitente. E o amanhã, bom, ao amanhã devemos amiúde o sentido das ações do aqui e agora.
Ok, Carpe Diem trata-se de uma aspiração. De utopia inumana que norteia a nossa confusa conduta.
Carpe Diem existe enquanto quimera. (E, claro, como hashtag ara atrair o algoritmo e converter o possível tráfego cibernético em likes.)
De resto, há que se render à ideia de que o presente não consegue sustentar-se por si só. Os sacrifícioss em prol do futuro impõem-se – sob pena de nos faltar comida no frigorífico, ou pior, deparar com os alimentos estragados por não termos como pagar a conta da eletricidade.
Prefiro a ideia dos Estoicos de que podemos estar a viver o último dos nossos dias a viver cada dia como se fosse o último.
Ao assumirmos que o atual dia é o dia derradeiro, perdemos perspectivaa, cai por terra a ponte da continuidade. Pode parecer bonito, floreado, mas ficamos retidos na questão: para quê tudo isto?
Retomo então a visão dos Estoicos. De que não podemos assumir que vamos acordar amanhã, mas que devemos levantar-nos da cama com as ganas de quem tem urgência em tornar as próximas horas nas melhores horas possíveis.
Como? A praticar aquilo em que não só somos bons, mas nos faz bem.
O facto ter em mente a finalidade das nossas ações e não se ficar pelo mero prazer, eleva a conduta de hedonista a pragmática. Nem tudo o que sabe bem é bom para nós, nem para quem nos rodeia.
O Carpe Diem instantâneo e infantil, certamente não cumpre os nossos desígnios. Quando muito, os nossos desejos.
A recriação do Carpe Diem, ou uma maneira requintada de o encarar e encarnar, satisfaz desígnios e desejos. Com a amplitude de quem conhece as suas limitações e as usa como meio de percorrer plenamente a imperfeita condição humana.