
O Brasil reescreveu o manual da democracia. Não importa mais o mérito, o voto ou o processo; o que prevalece é a narrativa, moldada à perfeição por uma mídia subserviente e uma juristocracia onipotente. Quem controla essa máquina não apenas governa, mas recebe o título honorífico de “democrata”. Do outro lado, os derrotados são banidos ao limbo político, carimbados com adjetivos convenientes como “golpistas”, “extremistas” ou até “antidemocráticos”.
Essa não é uma disputa legítima de ideias, mas um espetáculo grotesco onde a vitória é definida por quem manipula melhor as engrenagens do poder. O “democrata” de hoje não precisa de virtudes; basta alinhar-se ao aparato narrativo que define o bem e o mal. É irrelevante se a narrativa foi construída sobre verdades tortas, mentiras deslavadas ou um arsenal de rótulos. O objetivo não é a busca pela justiça ou pela pluralidade, mas sim a consagração do monopólio de discurso, enquanto os vencidos são estigmatizados e apagados.
O resultado disso é um apartheid ideológico. Não há espaço para contradição, debate ou dissonância. Quem ousa discordar é isolado e demonizado, como se a discordância fosse uma ameaça existencial. Essa dinâmica perversa destrói o conceito fundamental da democracia: o respeito à divergência. O que sobra não é a convivência entre opostos, mas a supremacia de uma narrativa única, imposta com o peso de instituições que deveriam, ironicamente, proteger a liberdade.
Chamar isso de democracia é insultar a própria palavra. Estamos diante de um sistema de poder que opera sob um verniz democrático, mas que se vale de estratégias autoritárias para garantir sua sobrevivência. Não é governo do povo, nem para o povo. É um regime de narrativas, onde quem grita mais alto não apenas vence, mas reescreve as regras do jogo, deixando para trás qualquer vestígio de legitimidade.