
Ao longo da minha vida, conheci pessoas marcantes, mas poucas tão singulares quanto o querido Pessoinha. Natural da Paraíba, paulistano de coração, ele era um homem de hábitos meticulosos, inteligência refinada e uma coragem que contrastava com sua figura franzina. Durante as temporadas de verão, era tradição ele se hospedar em nossa casa na Praia da Armação, na Penha, Santa Catarina. Lá, vivia sua rotina com uma disciplina admirável, como se cada gesto seguisse um roteiro cuidadosamente planejado.
Todos os dias, logo pela manhã, Pessoinha chamava um táxi e seguia direto para o aeroporto de Navegantes, onde comprava todos os jornais que encontrava. Não se tratava de um capricho, mas de uma busca incansável por informação. Ele lia jornais de todo o país, absorvendo cada notícia com atenção quase obsessiva. De volta à casa, sentava-se sob uma tenda simples, de um bar simples, com uma cervejinha gelada ao lado, e passava horas mergulhado nas manchetes, acompanhado pela brisa e pelo som das ondas.
Certo dia, enquanto ele lia tranquilamente, um Fiat Uno estacionou próximo à sua mesa. Dele desceram alguns rapazes, que logo começaram a montar um espetáculo de som. Abriram o porta-malas e revelaram alto-falantes gigantescos, visivelmente mais valiosos que o próprio carro. Com um volume ensurdecedor, tomaram a praia com uma música de gosto altamente duvidoso – algo brega, para ser gentil. As vibrações faziam Pessoinha, sua mesa e seu jornal literalmente saltarem.
Inicialmente, ele tentou resolver a situação de forma pacífica. Levantou-se, caminhou até os rapazes e, com sua habitual elegância verbal, propôs:
— Senhores, por obséquio, poderiam reduzir o volume? Estão atrapalhando minha leitura. Podemos chegar a um acordo: eu leio meus jornais, e vocês curtem a música um pouco mais baixo.
A resposta foi uma gargalhada debochada e um desdenhoso “Sai pra lá, velho!” Mesmo assim, ele insistiu, mas não obteve sucesso. De volta à mesa, visivelmente incomodado, Pessoinha tomou uma decisão. Sem dizer nada, levantou-se, olhou ao redor, encontrou um paralelepípedo próximo e, com surpreendente precisão, arremessou-o diretamente contra os alto-falantes. O som cessou instantaneamente, mas a confusão estava apenas começando.
Os rapazes, furiosos, foram confrontá-lo. Pessoinha, porém, não era homem de recuar. Empunhando seu inseparável extrator de grampos – uma ferramenta que carregava consigo como se fosse uma arma –, ele os encarou com a determinação de um general em campo de batalha. Antes que a situação se agravasse, amigos e conhecidos intervieram, separando os ânimos e levando-o de volta para casa.
Mas os rapazes não desistiram. Passaram a circular em frente à nossa casa, proferindo ameaças e procurando por ele. Pessoinha, entretanto, manteve a calma e, na calada da madrugada, decidiu encerrar suas férias. Chamou um táxi, seguiu direto para o aeroporto de Navegantes e voltou para São Paulo, deixando para trás a pequena epopeia que protagonizara.
Anos depois, o querido Pessoinha nos deixou. Em sua missa de sétimo dia, figuras ilustres compareceram para prestar suas homenagens. Entre elas, estava Orestes Quércia, político que Pessoinha assessorara em determinado momento, apesar de manter algumas ressalvas. Amigos, jornalistas e conhecidos também estavam presentes, relembrando as histórias de um homem cuja autenticidade era inigualável.
Após a missa, seguimos para um bar, onde compartilhamos memórias. Quando narrei o episódio do paralelepípedo, as gargalhadas foram inevitáveis. Até um Frei, amigo de Pessoinha, da Igreja São Domingos, em Perdizes, que nos acompanhava, soltou um comentário espirituoso:
— Que delícia!
(Era a igreja que guarnecia os pecados dos discípulos mais ilustres do Partidão, segundo o próprio Pessoinha ????)
Assim era o Pessoinha: único, corajoso e inesquecível. Um homem que nunca se curvou diante das dificuldades e viveu a vida com intensidade e caráter. Grandes homens deixam grandes histórias. E como curiosidade, dizem que o @Miltonneves foi um de seus alunos, mais um que carrega um pedaço do legado de Nicodemus Pessoa.