
O deputado Pollon, em um papel digno de uma tragicomédia política, mostrou-se mais uma vez como um fiel escudeiro do “Venaldemar” — o grande estrategista do PL, mestre em fazer média com o poder central do STF para preservar o próprio pescoço. Polon, que construiu sua base eleitoral sob as bandeiras da defesa dos clubes de tiro e dos CACs, revelou-se um desserviço ambulante no exato momento em que a questão do voto impresso e auditável era debatida com profundidade por alguém como Filipe Gimenez. Enquanto Gimenez, em sua elucidação magistral, expunha as nuances semânticas e jurídicas do sufrágio, Pollon insistia em reduzir a discussão a uma paranoia tecnológica sobre algoritmos. É o clássico jogo de desviar o foco.
A verdade é que o debate não é sobre tecnologia. Não se trata do meio eletrônico em si, mas da estrutura de um sistema que permite intermediários entre o votante e o votado. Em um país onde o funcionalismo público está aparelhado pela política e a moralidade institucional foi para o espaço, não é apenas imprudente — é perigoso — deixar agentes públicos com o monopólio do processo eleitoral. É como entregar a chave do cofre para quem está permanentemente sob suspeita.
Hoje, no Brasil, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral tem poder quase divino sobre o sistema eleitoral. Ele pode, literalmente, colocar uma urna eletrônica debaixo do braço, pegar um pendrive e declarar: “Está auditado!” E a população, perplexa, deve simplesmente aceitar, com a promessa de que algoritmos misteriosos garantem a integridade do sistema. O problema é óbvio: o funcionário público que deveria ser auditado pelo povo assume para si o papel de auditor. E não há ironia maior do que essa inversão grotesca de papéis em uma democracia.
Filipe Gimenez tem razão ao afirmar que essa situação só será resolvida com o escrutínio público e tangível dos votos. Não é sobre algoritmos, tecnologia ou modernidade. É sobre transparência. Uma contagem pública de votos eliminaria as dúvidas, os intermediários e as desculpas. Sem essa tangibilidade, entregamos a nossa vontade soberana a um sistema que nos devolve uma sopa de bits e bytes, acompanhada de um pedido velado: “Confie em nós.”
E por que deveríamos confiar? Nos últimos tempos, o funcionalismo público tem dado provas recorrentes de que não merece esse crédito. Não é uma questão de ser contra a tecnologia, mas de entender que a confiança pública precisa ser construída com base em princípios de transparência e verificabilidade. E entregar o resultado das eleições nas mãos de algoritmos secretos, auditados por quem deveria ser auditado, é um convite ao abuso.
A solução é clara e direta: contagem pública dos votos. A democracia não é um jogo de dados virtuais; é um processo tangível, audível e visível. É preciso acabar com a farra dos intermediários e devolver o poder ao povo, onde sempre deveria ter estado. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a ser reféns de proxies políticos que defendem mais os interesses do poder do que os da verdade. E, convenhamos, enquanto essa classe de “auditores” continuar ditando as regras, o “pendrive da confiança” seguirá sendo a maior piada institucional do país.