
No Brasil, a democracia é uma obra aberta, interpretada conforme o freguês. É quase como um samba: cada um coloca sua cadência, seus instrumentos e até o tom de improviso. Temos tantas formas de democracia quanto há sotaques, e isso é uma riqueza cultural que só perde para o caos jurídico e ideológico que nos caracteriza. O falastrão tem sua democracia — e geralmente está com o microfone na mão, berrando que os outros não têm. O ideólogo tem a dele, que funciona bem até alguém apontar uma contradição. Já o fanfarrão… bem, esse nunca perde a chance de transformar qualquer debate democrático em piada.
Mas, claro, não podemos esquecer o pragmático, que geralmente enxerga a democracia como uma moeda de troca. E sim, há espaço até para o maluco, desde que medicado — o que no Brasil é uma cláusula pétrea não escrita, porque um país que tolera um Congresso como o nosso já é, por definição, democrático até o limite da sanidade.
Agora, a democracia no Brasil tem nuances regionais e sociais. Por exemplo, os bolsonaristas têm sua versão de democracia, onde “meu candidato perdeu, então algo está errado”. Os petistas, por outro lado, vivem na democracia relativa do “Lula é a personificação do povo, e o resto é golpismo”. E aí temos o pobre, que pratica uma democracia com um realismo tocante. Ele entende, no dia a dia, que democracia não é sobre ganhar ou perder, mas sobre sobreviver — e, de vez em quando, colocar alguém no poder que pelo menos finja se importar.
Mas o grande exemplo de democracia pura no Brasil vem do interior, das pessoas simples, do povo humilde. Aquele que não precisa de artigos constitucionais ou tratados internacionais para saber o que é certo e errado. Não há malabarismo semântico, relativismo moral ou decisões judiciais complexas. É preto no branco, ou melhor, arroz com feijão. No interior, democracia é votar, cobrar, rezar e seguir em frente.
Já no alto escalão, a democracia assume contornos mais performáticos. Temos, por exemplo, o Luís do STF, o oráculo da jurisprudência tupiniquim. Ele sabe muito bem — segundo os jargões do “São Quadrado” — como “se importar”. Mas não confundam: a democracia do Luís é de alta precisão. Ela se adapta ao contexto, às companhias e, sobretudo, ao momento. É quase como o clima no Brasil: imprevisível.
No fundo, a democracia brasileira é um reflexo da nossa criatividade e flexibilidade. Não é à toa que conseguimos transformar até o caos em um sistema funcional (ou quase). É uma democracia tropical, que aceita tudo e todos — desde que caibam na narrativa de quem tem o poder no momento. E assim seguimos, firmes e cheios de ginga, dançando ao ritmo dessa democracia “à la carte”, onde cada um escolhe o prato que mais lhe convém. Afinal, se a democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo, quem somos nós para limitar o menu?
Vai uma feijoada democrática aí?
Bom domingo!