
Vivemos em tempos em que as redes sociais moldam comportamentos, opiniões e, inevitavelmente, polarizam sociedades. A ideia de Carl Jung sobre uma consciência coletiva nunca foi tão evidente como nos dias de hoje, em que grupos se formam em torno de narrativas simplistas e inflamadas, criando batalhas do “nós contra eles”. Essa dinâmica tribal, que encontra eco em todas as esferas da sociedade, transforma candidatos políticos, criminosos e figuras públicas em símbolos, independentemente de seus méritos ou faltas. O fenômeno não é novo, mas o alcance e a intensidade com que ocorre atualmente são alarmantes.
A defesa incondicional de figuras públicas, como se fossem deuses ou mártires, não é exclusividade brasileira. Porém, no Brasil, ela assume contornos extremos. O ex-presidiário Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Jair Bolsonaro exemplificam bem esse fenômeno. Lula é exaltado como herói por uns e vilão absoluto por outros, enquanto Bolsonaro é adorado por sobreviventes de sua narrativa e odiado por aqueles que, ironicamente, o condenam por não ter sucumbido à facada que sofreu. O que une esses polos opostos é a cegueira coletiva: uma irmandade de defensores dispostos a ignorar fatos concretos para preservar suas convicções emocionais. Não importa se o candidato é corrupto ou se cometeu erros graves; ele será defendido pela sua “tribo” com fervor quase religioso.
No entanto, o problema maior não é a defesa incondicional de líderes ou ideias, mas a forma como essa lealdade cega é alimentada e amplificada pelas redes sociais. Esses espaços, que deveriam ser democráticos, são frequentemente usados para promover mentiras, ódio e divisão. O caso do genocídio em Ruanda nos anos 1990 é um exemplo histórico que merece atenção. Após a queda de um avião que transportava o presidente Juvenal Habyarimana, boatos disseminados por rádios comunitárias inflamaram as tensões já existentes entre os Hutus e os Tutsis, desencadeando uma das maiores tragédias do século XX. A informação de que as rádios teriam incitado diretamente os massacres é um alerta sobre o poder devastador das narrativas irresponsáveis, especialmente em momentos de alta polarização.
As redes sociais, com seu alcance quase ilimitado, são hoje o equivalente moderno dessas rádios. Boatos, manipulações e meias-verdades podem, literalmente, destruir relações sociais, incitar violência e desviar a atenção dos verdadeiros problemas. O Brasil de hoje reflete bem esse cenário, com vizinhos que se atacam virtualmente e parentes que cortam relações por divergências políticas. Em vez de buscar soluções para questões estruturais, as pessoas preferem alinhar-se a narrativas prontas e atacar “inimigos” fabricados.
Como interromper esse ciclo? Certamente, não será por meio de censura governamental ou judicial. Um governo composto por corruptos e ladrões, como infelizmente é comum no Brasil, nunca poderá ser um árbitro justo de quem deve ou não ter voz. A censura, em qualquer forma, é o oposto da solução; ela apenas reprime temporariamente sintomas sem tratar a raiz do problema. O verdadeiro antídoto contra a polarização e a violência verbal deve vir da conscientização individual e coletiva, do despertar de uma sociedade que valorize os fatos e a lógica acima das emoções inflamadas.
Para isso, é fundamental defender a liberdade de crítica como um bem inalienável. Criticar não é apenas um direito; é um dever em uma sociedade democrática. A crítica construtiva não conhece partido, religião ou ideologia. Ela é o reflexo do descontentamento legítimo de indivíduos que buscam um futuro melhor. Cercear essa liberdade, seja por pressões sociais ou por políticas autoritárias, é condenar a sociedade à estagnação e ao conformismo.
Portanto, é hora de repensar o papel das redes sociais e da própria internet como um todo. Esses espaços devem ser usados para promover o diálogo, a troca de ideias e a busca pela verdade. Cada indivíduo tem a responsabilidade de questionar, investigar e, acima de tudo, pensar por si mesmo. Assim, podemos transformar esse ambiente doentio em um lugar de aprendizado e crescimento, onde a consciência coletiva se torne uma força para o bem, e não uma arma de destruição mútua.