
O Brasil vive uma ilusão perigosa, um devaneio coletivo que apelidaremos aqui de “otimismo tóxico.” É uma característica curiosa da sociedade brasileira pós-regime militar, seja você do time que o chama de “ditadura” ou “governo autoritário” — um detalhe semântico que, no final das contas, pouco altera a tragédia subsequente. Desde então, o país se entregou a décadas de governos de esquerda. Alguns usavam máscaras de tecnocracia ou até ensaiavam passos tímidos à direita, mas nenhum, absolutamente nenhum, rompeu os grilhões do estatismo ou das alianças espúrias que sustentam o famigerado “centrão.”
Esse tal de centrão, diga-se de passagem, não é um bloco político: é uma instituição nacional. Uma fábrica de mediocridade institucionalizada, forjada no conluio entre aristocratas reciclados, oportunistas bem-vestidos e aquele tipo de corrupto que rouba, mas nem tenta disfarçar. O centrão é o ponto onde todos os caminhos da corrupção se encontram — o cruzamento da inércia com a falta de vergonha. E, ainda assim, milhões de brasileiros conseguem olhar para isso e sentir alívio. Por quê? Porque a alternativa apresentada foi a utopia socialista.
Ah, o socialismo! Este sim merece um capítulo à parte no teatro das ilusões humanas. No Brasil, ele não chegou a ser um sistema econômico — foi mais um verniz ideológico para justificar incompetência administrativa e institucionalizar o caos. Claro, a história já mostrou, em episódios variados e geograficamente amplos, que o socialismo é tão autossustentável quanto um castelo de areia em dia de maré alta. Rússia, Hungria, Polônia, Iugoslávia… Todos esses experimentos terminaram na desgraça. Mas o brasileiro médio, eternamente grato por não ter que viver o pesadelo totalitário de fato, contentou-se com algo “melhorzinho.” Melhorzinho, no caso, é o centrão.
E aí entra o otimismo tóxico: o contentamento com o mínimo. Para muitos, qualquer coisa que não seja a utopia socialista já é motivo de celebração. Não importa se o país continua atolado em impostos desumanos, escolas de qualidade pífia e serviços públicos que servem mais aos políticos do que à população. Não, nada disso importa! Desde que o pesadelo da ditadura do proletariado fique longe, o centrão parece um mal menor. Mas será mesmo?
Esse otimismo tóxico cega o eleitorado. Ele impede o cidadão comum de enxergar além da mesmice corrupta. E o mais preocupante é que, em um cenário assim, não há espaço para alternativas verdadeiras. Quem sugere algo novo é automaticamente taxado de “extremista.” Conservadores são confundidos com reacionários, libertários são vistos como anarquistas irresponsáveis, e qualquer movimento em direção a um modelo de Estado mais eficiente e menos invasivo é tratado como ameaça.
Não, não é sobre virar à extrema-direita. O Brasil não precisa de extremismos; precisa de lucidez. De ideias novas, líderes novos, soluções novas. Precisa de uma ruptura — não com a democracia, mas com essa democracia de fachada que protege elites políticas enquanto estrangula o cidadão comum. O Brasil precisa olhar além do centrão.
O otimismo tóxico é o anestésico que impede o povo de sentir a dor do sistema atual. É um mecanismo de sobrevivência, mas também um entrave para a evolução. Chegou a hora de acordar. Porque, no final das contas, o verdadeiro problema do otimismo tóxico não é apenas que ele nos impede de reclamar: ele nos faz aceitar. E aceitar é a forma mais sutil e perigosa de desistir.