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COLOCARAM FLÁVIO BOLSONARO EM CIMA DO TAPETÃO

Para esconder a sujeira que o PT guarda embaixo dele

Hermínio Naddeo
Por: Hermínio Naddeo Fonte: Opinião
25/09/2026 às 12h35
COLOCARAM FLÁVIO BOLSONARO EM CIMA DO TAPETÃO
Imagem IA

Se existem suspeitas, indícios ou provas de que uma candidatura está sendo beneficiada por propaganda financiada com dinheiro estrangeiro, seja lá qual for o candidato, investigue-se. É imprescindível saber quem pagou, quanto pagou, como pagou e se houve participação ou coordenação com a campanha. Provem. E, se a legislação foi desrespeitada ou houve abuso eleitoral suficientemente grave, que se aplique a lei. Mas provem.

A questão envolvendo Flávio Bolsonaro, porém, está também em quem exige essa régua. O PT colocou Flávio em cima do tapete, sob os holofotes, a poucos dias da eleição, enquanto uma história muito mais longa de relações políticas, denúncias de financiamento internacional e participação em eleições estrangeiras permanece embaixo dele.

O problema do PT não parece ser a interferência estrangeira nas eleições. Parece ser quem interfere, em qual eleição e a favor de quem.

POR QUE AGORA?

O PT não decidiu judicializar pesadamente a candidatura de Flávio num vácuo político. Desgaste do governo, escândalos atingindo ou orbitando pessoas próximas a Lula, INSS, Banco Master, dificuldades internacionais, controvérsias sobre PCC e CV e um cenário eleitoral cada vez mais disputado compõem o ambiente em que surgem as ações.

O PT pode não saber que perderá. Ninguém sabe. Mas seu comportamento é, na minha leitura, o de quem passou a considerar seriamente essa possibilidade.

No TSE, o PT pede, caso reconhecidos os ilícitos, a cassação do registro ou diploma da chapa Flávio Bolsonaro–Alfredo Gaspar e a inelegibilidade de Flávio e Eduardo Bolsonaro. Paralelamente, recorreu ao STF para produzir parte das provas capazes de sustentar essas acusações.

E aí está uma das peculiaridades dessa ofensiva: levou ao TSE o pedido que pode resultar na cassação e foi ao STF buscar as provas.

Na Suprema Corte, o PT pediu investigação, informações às plataformas, depoimentos, análise de documentos e, se consideradas necessárias e judicialmente autorizadas, medidas como buscas e quebras de sigilos. O próprio pedido prevê que os elementos produzidos possam ser compartilhados com a Justiça Eleitoral.

Mais curioso ainda é o caminho escolhido. Em vez de uma nova ação submetida à distribuição, o PT levou a questão para dentro da ADPF 1178, que originalmente discutia litígios de municípios brasileiros em tribunais estrangeiros e já tinha Flávio Dino como relator. Assim, a questão eleitoral chegou a Dino sem novo sorteio.

Dino foi ministro de Lula, indicado por Lula ao STF e mantém conhecida relação política com seu grupo. A defesa de Flávio contesta a regularidade dessa escolha processual perante a presidência do STF. Por enquanto, parece “missão dada”. Resta saber até onde será “missão cumprida”.

O QUE HÁ DEBAIXO DO TAPETÃO?

Antonio Palocci afirmou em colaboração premiada que o governo de Muammar Kadafi teria destinado aproximadamente US$ 1 milhão à campanha presidencial de Lula em 2002. A acusação não teve comprovação judicial definitiva, mas há um detalhe fundamental: a legislação eleitoral daquele ano já proibia doações provenientes, direta ou indiretamente, de entidade ou governo estrangeiro.

Qual foi a indignação do PT diante da acusação de que um governo estrangeiro teria colocado dinheiro diretamente na campanha de Lula?

Hugo “El Pollo” Carvajal, ex-chefe da inteligência de Hugo Chávez, também acusou o regime venezuelano de financiar partidos estrangeiros, incluindo o PT. Não houve comprovação. E é exatamente esse o ponto: se acusações contra o PT sem comprovação devem corretamente ser chamadas de acusações, o mesmo critério precisa valer quando o acusado é seu principal adversário.

MAS É COM A ODEBRECHT QUE O TAPETE FICA REALMENTE PESADO.

A empresa admitiu internacionalmente um gigantesco sistema de pagamentos clandestinos e propinas. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos registrou cerca de US$ 788 milhões em pagamentos ilícitos em diversos países. O próprio STF registrou termos de colaboração relativos a pagamentos não oficiais para campanhas em Angola, República Dominicana, Panamá, Venezuela, El Salvador e Brasil.

No Peru, a acusação da PGR registrou US$ 3 milhões da Odebrecht para a campanha presidencial de Ollanta Humala, atribuindo o pedido a Antonio Palocci.

Em El Salvador, João Santana relatou a participação de Lula nas conversas que antecederam a solução financeira para sua atuação na campanha de Mauricio Funes e o posterior envolvimento da Odebrecht. Parte da investigação terminou por prescrição. E prescrição não é certificado de inexistência do fato.

Na Venezuela, João Santana e Mônica Moura relataram pagamentos da Odebrecht relacionados à campanha de Hugo Chávez em 2012.

NÃO SÃO CASOS IGUAIS. NÃO SÃO.

Kadafi envolve a acusação de dinheiro estrangeiro entrando numa campanha brasileira. Odebrecht envolve dinheiro brasileiro financiando campanhas estrangeiras. Carvajal acusou a Venezuela de financiar o PT. Flávio é acusado de ter sido beneficiado por publicidade impulsionada por estrangeiros.

E há ainda 2022. Sob a presidência de Luís Roberto Barroso, o TSE manteve cooperação com instituições norte-americanas na preparação para o processo eleitoral. Em 2021, participou de iniciativas do Consórcio para Eleições e Fortalecimento do Processo Político (CEPPS), supervisionado pela USAID, agência do governo dos Estados Unidos, inclusive na produção de material de combate à desinformação. Barroso participou também de evento promovido pelo CEPPS e pela USAID sobre eleições e transformação digital.

Posteriormente, Mike Benz, ex-funcionário do Departamento de Estado americano, acusou a USAID e outras estruturas dos Estados Unidos de terem interferido politicamente no ambiente eleitoral brasileiro de 2022. As acusações de Benz não foram comprovadas, mas a cooperação institucional entre TSE, CEPPS e USAID antes daquela eleição é documentada.

Juridicamente, portanto, são situações diferentes.

Politicamente, porém, permanece a pergunta: desde quando soberania eleitoral significa impedir participação ou influência estrangeira apenas quando ela beneficia o adversário do PT?

A LEI NÃO É IGUAL PARA TODOS?

A jurisprudência do TSE exige prova robusta e gravidade para que abuso eleitoral produza consequências extremas. Não é indispensável provar que o candidato pessoalmente executou o abuso para que possa haver cassação, desde que demonstrado que foi diretamente beneficiado por abuso suficientemente grave.

E é justamente aqui que as duas frentes abertas pelo PT voltam a se encontrar.

Quanto foi gasto em benefício de Flávio? Quem pagou? Qual foi o alcance? Quantos eleitores brasileiros foram atingidos? Houve coordenação com a campanha? Qual foi a participação dela? Houve contrapartida?

São perguntas fundamentais. Mas são também algumas das perguntas que o PT pretende responder com as provas que foi buscar no STF, depois de já ter levado ao TSE uma ação que pode resultar na cassação.

Investigar para responder a essas perguntas é uma coisa. Pedir a cassação enquanto ainda se procuram as provas capazes de dimensionar o suposto abuso é outra.

Minha leitura é política: as ofensivas simultâneas no TSE e no STF parecem um seguro eleitoral. Se Lula vencer, venceu nas urnas. Se perder, a disputa judicial contra seu principal adversário já estará montada.

Nem tudo debaixo desse tapete foi comprovado. Há fatos documentados, depoimentos de colaboradores e acusações que permaneceram sem comprovação. Mas o mesmo rigor usado para distingui-los precisa valer quando o acusado se chama Flávio Bolsonaro.

Se interferência estrangeira é inaceitável, que seja sempre, para qualquer candidato e qualquer partido. Se indício justifica investigação, investigue-se. Se cassação exige prova robusta, que se exijam provas robustas de qualquer um.

O PT colocou Flávio Bolsonaro em cima do tapete. Talvez aposte que, com todos olhando para ele, ninguém se lembrará de perguntar quanta coisa ficou escondida embaixo.

 

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Hermínio Naddeo
Hermínio Naddeo
Escritor/Jornalista, mestrado em palpitologia, doutorado em opinologia, pós-doutorado em falastronismo.

Administrador, publicitário, jornalista, com quase duas décadas de atuação na cobertura política e análise de conjuntura nacional. Especializado em leitura estratégica de cenários, mantém uma linha editorial independente e de viés conservador, com foco em liberdade, soberania e responsabilidade institucional. É colunista do site No Ponto do Fato, onde assina artigos que aliam crítica firme, ironia pontual e compromisso com a verdade. Registro profissional MT 22619/MG.
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