
O que assistimos ontem, no debate presidencial da TV Globo, foi, na minha avaliação, o fim de uma era. Mais do que um confronto entre candidatos, vimos o esgotamento de um projeto político que, há décadas, promete transformar o Brasil, mas continua devendo respostas sobre seus resultados. De um lado, Flávio Bolsonaro, apresentando-se como alternativa para o futuro. Do outro, Lula, recorrendo insistentemente ao passado para justificar sua permanência no poder.
Quando Flávio questionou o preço dos alimentos e o endividamento das famílias, Lula respondeu enumerando programas sociais. Quando o assunto foi infraestrutura, sugeriu que o adversário procurasse no Google as realizações de seu governo.
Após 18 anos de governos petistas, o Brasil poderia estar muito mais desenvolvido. Nos primeiros oito anos, Lula beneficiou-se da estabilidade econômica proporcionada pelo Plano Real — contra o qual o PT votou — e da valorização internacional das commodities.
Commodities são produtos básicos, como soja, minério de ferro e petróleo, comercializados mundialmente. O Brasil é um grande exportador dessas riquezas, mas continua aproveitando insuficientemente seu potencial industrial. Exportamos minério que outros países transformam em aço, máquinas e automóveis. Exportamos soja, que poderia gerar ainda mais alimentos industrializados e outros derivados.

É verdade que também fabricamos esses produtos. A questão é quanto mais poderíamos produzir se tivéssemos um ambiente favorável à indústria. Enquanto isso, produtos chineses conquistam nosso mercado, frequentemente com preços inferiores aos nacionais. Burocracia, tributação complexa, insegurança jurídica e custos elevados comprometem nossa competitividade. O resultado é um país que exporta matérias-primas e importa produtos de maior valor agregado, desperdiçando oportunidades de gerar empregos, tecnologia e riqueza.
Essa realidade reflete, na minha avaliação, um Estado excessivamente intervencionista, que dificulta a livre iniciativa e privilegia a arrecadação.
E aqui encontramos outra característica dos governos petistas: a transformação da assistência social em instrumento permanente de relacionamento político com a população. Não questiono a necessidade dos programas sociais. Questiono a ausência de uma estratégia igualmente determinada para permitir que seus beneficiários conquistem independência econômica.
O dinheiro público pertence à sociedade. Promover desenvolvimento é obrigação de qualquer governante, não uma generosidade que exija gratidão eleitoral.
Durante os governos de Dilma Rousseff, o país também enfrentou uma recessão histórica. Segundo o IBGE, o PIB caiu 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016, acumulando retração aproximada de 6,7%, a maior recessão já sofrida na história da economia brasileira. Agora, chegamos ao encerramento do terceiro mandato de Lula sem soluções proporcionais ao tempo que seu grupo político permaneceu no poder.
Houve redução das mortes violentas e ampliação, mas isso já vinha ocorrendo desde o governo anterior. Entretanto, menos homicídios não significam necessariamente maior segurança diante do domínio territorial das facções criminosas.Também pode-se dizer que houve evolução dos atendimentos na saúde pública, mas que não significam necessariamente que o cidadão esteja recebendo atendimento no momento em que precisa. Mais consultas e exames não eliminam as filas por especialistas, diagnósticos e cirurgias no SUS.São avanços, mas muito inferiores ao que poderia e deveria ter sido feito.
Nas contas públicas, o cenário também preocupa. Entre dezembro de 2022 e agosto de 2026, a dívida pública bruta cresceu aproximadamente R$ 3,83 trilhões, aumento de 53%. Em relação ao PIB, passou de 71,7% para 82,9%.
Embora juros e outros fatores influenciem esse crescimento, os números revelam o tamanho do desafio fiscal. Ampliar despesas permanentes sem assegurar sustentabilidade financeira compromete investimentos futuros. Programas sociais são necessários, mas não substituem crescimento econômico, produtividade, empregos e geração de renda.
Mensalão e Petrolão marcaram profundamente nossa história, envolvendo dirigentes políticos, agentes públicos e empresários. Houve condenações e decisões judiciais posteriores que alteraram a situação processual de envolvidos, mas os escândalos permanecem registrados. Condenações foram anuladas pelo STF, o que não significa absolvições.
Mais recentemente, as fraudes nos descontos de aposentados e pensionistas do INSS alcançaram o entorno familiar de Lula, com investigações envolvendo seu filho Fábio Luís e seu irmão Frei Chico, que negam irregularidades. Mas Fábio Luís tem sobre sua cabeça uma espada apontada por sua amiga e sócia Roberta Luchsinger, que promete uma delação premiada.
Também surgiu o caso Banco Master, com ramificações políticas em diferentes partidos, inclusive no PT.
Lula recebeu Daniel Vorcaro no Planalto, em dezembro de 2024, numa reunião fora da agenda oficial, intermediada por Guido Mantega, ex-ministro que prestou consultoria ao banco. O presidente negou favorecimento. Mas não negou ter recebido de presente do banqueiro uma garrafa de whisky avaliada em meio milhão de reais – inclusive disse que “se recebeu, já bebeu”.

O senador Jaques Wagner e o ministro da Casa Civil, Rui Costa, também foram mencionados em investigações relacionadas à instituição, envolvendo o Credicesta na Bahia, um apartamento de mais de 2 milhões para Wagner, sem explicações até o momento.
No debate, Lula e Flávio trocaram acusações envolvendo Vorcaro e as fraudes do INSS. Mas acusações recíprocas não substituem transparência e responsabilização. Foi nesse cenário que percebi a diferença mais significativa entre os candidatos.
Flávio mostrou-se mais tranquilo, entusiasmado e disposto a defender mudanças. Lula pareceu frequentemente sisudo, impaciente e preocupado em justificar seu histórico. Isso não significa que Flávio tenha respondido satisfatoriamente a tudo. Algumas propostas precisam de maior detalhamento, e houve momentos em que precisou explicar declarações e desculpar-se por uma referência pessoal ao adversário.
Entretanto, a impressão predominante foi a de um candidato procurando representar renovação diante de outro que reivindica continuidade. Não se trata simplesmente de juventude contra idade. Trata-se de duas maneiras de apresentar o futuro: uma prometendo mudanças; outra insistindo na preservação de uma fórmula política conhecida. Por isso considero que a Globo testemunhou um abate político de Lula. Não porque um debate decida uma eleição, mas porque expôs o desgaste de um discurso que domina a política brasileira há décadas.
Mas o debate deixou uma imagem difícil de ignorar: a de um projeto político que precisa recorrer continuamente ao passado para justificar sua permanência no poder.
Talvez esse seja o verdadeiro significado do abate: não a derrota de um homem, mas o questionamento de uma fórmula política que, após tantos anos, ainda precisa convencer o Brasil de que conseguirá entregar aquilo que continua prometendo.
Por isso, considero que o debate da Globo, para Lula, foi o abate político que pode decretar além do fim de sua carreira, o fim de uma corrente ideológica que em mais de 40 anos influenciando a política brasileira só conseguiu produzir um candidato capaz de enganar tanta gente durante tanto tempo.
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