
Debates, ou "barracos", como o visto na noite de ontem na Band, feliz ou infelizmente, não são características exclusivas da política brasileira. Na maioria dos países onde eles acontecem, o que se vê é uma troca de acusações e praticamente nenhuma apresentação de propostas.
Inferiorizar o adversário por seus deméritos se tornou mais importante do que conquistar o eleitor pelos próprios méritos. E a culpa disso pode estar no próprio regramento estabelecido para que o debate aconteça.
Debate envolve trocas de ideias, propostas, provar que uma ideia ou um projeto é melhor do que o outro. É uma troca organizada de ideias, argumentos e pontos de vista, com foco no conteúdo, na escuta ativa e no respeito.
O que vemos sempre, no entanto, são embates, choques, colisões, conflitos de resistência, quando duas posições rígidas se enfrentam sem a intenção de ouvir o outro. Há polarização, agressividade ou disputa de ego, raramente trazendo resultados produtivos. No popular, barracos, gritaria, ofensas e perda de controle.
É verdade que houve propostas. Flávio falou de segurança pública, da classificação de facções criminosas como organizações narcoterroristas, de vagas no sistema prisional, de mudanças na saúde e de medidas econômicas. Lula falou da PEC da Segurança Pública, da ampliação do Mais Médicos, de renegociação de dívidas, de política industrial e de outras iniciativas de seu governo. Portanto, seria incorreto afirmar que nada foi apresentado.
Mas apresentar propostas em meio a um barraco é muito diferente de debatê-las. Faltou aprofundamento, faltou confrontar a viabilidade das ideias, seus custos, suas consequências e, principalmente, explicar ao eleitor por que uma proposta seria melhor do que a outra. As propostas apareceram, mas não foram as protagonistas. Foram coadjuvantes de um espetáculo em que o objetivo principal parecia ser desqualificar o adversário.
E aqui está uma questão que merece reflexão: se é necessário que, no dia seguinte, os veículos de comunicação organizem e expliquem as propostas apresentadas pelos candidatos, quanto o eleitor efetivamente conseguiu compreender durante o debate? Não seria justamente essa a principal finalidade de um encontro entre aqueles que pretendem governar o país?
O barraco da Band ofereceu muito menos do que poderia e deveria aos eleitores, especialmente aos indecisos. Quem vota em Lula continuará votando. Quem vota em Flávio continuará votando. Pelo barraco assistido, aos indecisos resta muito mais a avaliação de quem foi menos agressivo, menos intolerante, menos descontrolado e demonstrou ter um ego menor do que o do outro do que uma comparação consistente entre projetos de governo.
O analista Roberto Motta fez uma observação interessante. Sugere que as pessoas reassistam ao debate, tirando o som da televisão, observando apenas as expressões e os gestos dos candidatos. E, diante da maneira como as propostas foram ofuscadas pelo confronto, penso que faz algum sentido esse tipo de análise.
A comunicação não verbal também revela aspectos importantes da postura de um candidato. Expressões faciais, gestos, reações às provocações e capacidade de manter o controle podem transmitir mensagens que as palavras procuram esconder. Mas não deveria ser necessário desligar o som da televisão para tentar descobrir qual dos candidatos demonstrou melhores condições de governar o país.
Quem perdeu no barraco da Band foi o eleitor, mais uma vez. Assim como todo resquício de democracia, este modelo de debate está falido, fadado a apresentar espetáculos degradantes de ridículo, constrangimento e vergonha alheia, oferecendo a quem quer se decidir por um candidato muito mais elementos para escolher o menos pior do que para identificar o melhor.
A grande diferença que pode ser levada em conta para uma decisão é que, ontem, Lula protagonizou mais um barraco eleitoral de sua carreira política, recorrendo à agressividade e às acusações para se apresentar ao público. Flávio, por sua vez, usou basicamente a mesma estratégia, mas, na minha avaliação, com menos agressividade nas expressões e nos gestos, conseguindo manter uma postura que serviu menos para mostrar a si mesmo e mais para deixar que Lula, com suas próprias expressões e seus gestos, mostrasse quem realmente é.
Há, entretanto, uma questão que vai muito além de Lula e Flávio. Enquanto os debates forem organizados para favorecer o confronto pessoal, a interrupção, a provocação e a busca pela frase de efeito que renderá alguns segundos nas redes sociais, cumprirão dificilmente a função de permitir ao eleitor conhecer e comparar projetos de governo.
Afinal, não deveria ser necessário escolher quem se comportou melhor em um barraco, mas quem apresentou as melhores condições e propostas para governar o Brasil.
Vem aí o barraco da Globo. Que os indecisos façam sua melhor escolha.
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