
O governo Lula recebeu, no início de 2023, um Governo Central que havia fechado 2022 com superávit primário de R$ 54,1 bilhões — o primeiro resultado positivo após oito anos de déficits. Quatro anos depois, a Dívida Bruta do Governo Geral alcança cerca de R$ 11,1 trilhões (82,9% do PIB em agosto de 2026), com trajetória ainda ascendente e projeções de mercado apontando para 83,4% no fim deste ano e 87% em 2027. O custo dos juros permanece elevado e o déficit primário projetado para 2026 gira em torno de R$ 53 bilhões.
No setor produtivo, os pedidos de recuperação judicial bateram recorde em 2025 (2.466 empresas, segundo a Serasa Experian), com o agronegócio representando cerca de 30% dos casos, em um ambiente de juros altos, crédito mais restrito e carga tributária que empresários apontam como sufocante. A ausência de uma política clara de desburocratização e de investimento estruturado em infraestrutura e capacitação para o empreendedorismo — especialmente no Nordeste — contribui para esse quadro de estresse empresarial.
Ao mesmo tempo, declarações do presidente relativizando a responsabilidade de traficantes (como a de que seriam “vítimas dos usuários”) reforçam a percepção de que o governo privilegia uma visão que trata criminosos como vítimas da sociedade, enquanto a violência nas ruas e a sensação de insegurança continuam presentes no cotidiano da população.
Esse é o saldo fiscal e de ambiente de negócios que se apresenta ao eleitor em 2026: de um superávit primário herdado a uma dívida nominal de R$ 11 trilhões e a um setor empresarial sob forte pressão.
A dívida bruta do governo geral está em cerca de 82,9% do PIB (agosto de 2026) e as projeções de mercado apontam para 83,4% no fim do ano e 87% em 2027. O déficit primário projetado para 2026 gira em torno de R$ 53 bilhões. O principal motor do crescimento da dívida não é apenas o déficit primário, mas o custo dos juros: a Selic permanece elevada (13,75%) e o serviço da dívida consome recursos que poderiam ir para investimentos ou redução de impostos.
Mais quatro anos sem um ajuste estrutural crível tendem a aprofundar esse quadro. O próprio governo já sinalizou que as políticas atuais não cabem no orçamento a partir de 2028 sem novas fontes de receita ou corte de gastos. A continuidade de expansão de despesas condicionadas a leis ainda não aprovadas (isenção de IR, Pix MEI, tarifa zero etc.) aumenta o risco de deterioração da trajetória da dívida, pressão sobre o câmbio e manutenção de juros altos por mais tempo. Isso afeta diretamente o custo do crédito para empresas e famílias e reduz o espaço para investimento privado.
O uso intensivo do Judiciário como arena política — tanto por parte do Executivo quanto de oposições — corroeu a percepção de neutralidade das instituições. A polarização extrema reduz a capacidade de construir consensos mínimos sobre reforma tributária, Previdência e regras fiscais. Em um segundo mandato consecutivo do mesmo grupo político, o risco é de aprofundamento do conflito institucional, com maior judicialização de decisões orçamentárias e administrativas, e menor previsibilidade para investidores e agentes econômicos.
O esquema de descontos indevidos no INSS (Operação Sem Desconto) revelou falhas graves de controle em convênios com associações e sindicatos, com valores estimados em bilhões e envolvimento de entidades próximas ao entorno do presidente. Investigações envolvendo o filho do presidente e lobistas ligadas ao mesmo esquema ainda estão em curso. A continuidade do mesmo grupo no poder, sem renovação clara de controles e transparência, eleva o risco de repetição de padrões de captura de órgãos públicos por interesses particulares.
Na saúde, a suspensão temporária da vacina Butantan-DV contra dengue (por investigação de eventos adversos) e relatos de desabastecimento pontual de medicamentos mostram vulnerabilidades de planejamento e comunicação. Embora a cobertura vacinal de rotina tenha se recuperado em relação a anos anteriores e os casos de dengue tenham caído em 2026 em relação ao pico de 2024, a capacidade de resposta rápida a crises sanitárias continua sendo um ponto de fragilidade.
A redução dos homicídios é real e relevante. Porém, crimes patrimoniais, estelionatos digitais, feminicídios e a atuação de organizações criminosas de alta periculosidade permanecem desafios estruturais. A proposta de um “SUS da Segurança” e de endurecimento contra facções ainda depende de aprovação e implementação efetiva. Sem mudança de abordagem que combine repressão qualificada, inteligência e redução de impunidade, o risco é de que os avanços recentes se estabilizem em patamares ainda elevados para padrões internacionais e que a sensação de insegurança continue minando a qualidade de vida e o ambiente de negócios.
Mais quatro anos do atual governo não significam, automaticamente, colapso econômico ou institucional. Significam, porém, a manutenção de uma combinação perigosa: dívida em trajetória ascendente, juros elevados, polarização institucional, escândalos de governança ainda não resolvidos e um modelo de expansão de gastos que depende de recursos futuros que o próprio governo admite não ter garantidos.
O risco real não é o de um “fim do Brasil”. É o de um país que avança de forma lenta e desigual, com custo de capital alto, baixa confiança institucional e capacidade limitada de enfrentar choques externos ou crises internas. Em um ambiente global de juros elevados e competição por investimentos, a continuidade desse padrão tem preço: menos crescimento potencial, maior vulnerabilidade fiscal e erosão gradual da capacidade do Estado de entregar serviços básicos com eficiência.
Esses são os riscos concretos que o eleitor precisa avaliar — não com base em catastrofismo, mas nos números e nas trajetórias que já estão em curso.