
Depois de 19 anos ostentando a posição de credor líquido internacional, um dos raros pilares de estabilidade macroeconômica construídos no passado, o Brasil voltou oficialmente ao campo dos devedores externos. Dados recentes do Banco Central revelam que a dívida externa do país bateu o recorde de US$ 407,1 bilhões, superando o volume total das reservas internacionais (estacionadas em US$ 402 bilhões). O resultado é uma dívida externa líquida positiva em US$ 5,1 bilhões, marcando a perda do colchão de liquidez que protegia o país de choques globais desde 2007.
O avanço desenfreado do endividamento, que cresceu 27,4% no atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ritmo amplamente superior ao crescimento das reservas (15,8%), não é um acidente de percurso. Trata-se do desfecho previsível de uma gestão pautada pela expansão do gasto público, pelo inchaço da máquina estatal e pela total desconfiança dos agentes de mercado.
Para compreender a gravidade do momento atual, é preciso resgatar um dos episódios mais emblemáticos da propaganda política petista. No primeiro governo Lula, o Planalto anunciou com alarde o “pagamento” da dívida externa junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI). A retórica eleitoral tentou vender a ilusão de que o Brasil havia se libertado das amarras dos credores globais.
A realidade técnica, contudo, passou longe dessa versão romântica. O que ocorreu foi uma simples e desastrosa troca de perfil do passivo: o governo substituiu uma dívida externa denominada em dólares, que rodava a taxas de juros internacionais mais baixas, por uma dívida interna emitida em reais a juros estratosféricos. Para capitalizar politicamente a bandeira de “país soberano”, o Tesouro entregou o financiamento do Estado aos bancos brasileiros, disparando o custo do serviço da dívida pública e contratando a bola de neve fiscal que sufoca o orçamento nacional até hoje.
O retorno à condição de devedor internacional joga por terra o último argumento que ancorava o prêmio de risco do país. A deterioração das contas externas vem acompanhada por um quadro ainda mais delicado no manejo das reservas cambiais do país:
O retorno do Brasil ao status de devedor internacional é o selo definitivo de fracasso de uma matriz econômica que gasta mais do que arrecada e tenta financiar seu populismo via endividamento. O rombo das contas públicas, o déficit em transações correntes (que alcançou impressionantes US$ 67,4 bilhões) e o avanço irresponsável das despesas obrigatórias colocaram o Brasil, mais uma vez, no radar de risco dos grandes investidores globais.
Enquanto Brasília consome bilhões de reais para sustentar privilégios e estruturas governamentais ineficientes, o país perde a credibilidade construída a duras penas. A virada nas contas externas confirma o óbvio: a mudança na condução econômica e a retomada urgente da austeridade fiscal a partir de 2027 deixaram de ser um debate ideológico para se tornarem questão de sobrevivência nacional.