
No segundo turno das eleições de 2026, a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva tem se apoiado em duas frentes principais: um pacote de promessas que dependem de aprovação no Congresso e de recursos que o próprio governo admite não existir com folga a partir de 2028, e acusações ao adversário Flávio Bolsonaro que não se sustentam no programa apresentado pela equipe econômica do senador. Ao mesmo tempo, o eleitor é confrontado com um relatório da Polícia Federal sobre o advogado Willer Tomaz — repleto de “indícios”, “suspeitas” e “hipóteses” — e com o maior escândalo recente de descontos indevidos em aposentadorias do INSS, que atinge o entorno familiar e de influência do presidente.
Lula tem anunciado isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, aumento real do salário mínimo nos próximos anos, o “Pix MEI” de até R$ 5 mil para microempreendedores que quitarem dívidas, tarifa zero de ônibus aos fins de semana e feriados, e o fim das bets. Todas essas medidas exigem lei, projeto de lei complementar ou Proposta de Emenda à Constituição. O perdão de dívidas de MEIs, estimado em R$ 12,6 bilhões, é projeto de lei. O Pix MEI, segundo o próprio governo, só valeria a partir de 2027 e tem custo estimado de R$ 5 bilhões em quatro anos. A tarifa zero é PEC, com dois turnos e quóruns qualificados. O fim das bets também depende de lei. Nada disso está ao alcance exclusivo do Executivo.
A coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, tem respondido de forma direta. O “tesouraço” anunciado pelo candidato, segundo ela, é em impostos e burocracia, não em programas sociais. “Eles estão mentindo que tesouraço é em programa social”, afirmou em entrevista à Jovem Pan. A primeira medida prevista é a revisão do IOF, que encarece o crédito. Ela já mapeou mais de duas mil normas para revogação. Petrobras, Banco do Brasil e Caixa ficam de fora de qualquer discussão de monetização de estatais; o restante seria avaliado caso a caso por um comitê gestor. Mais de vinte estatais dependentes do Tesouro, segundo a equipe, não fazem sentido existir da forma atual.
Sobre o Bolsa Família, a proposta de Daniella é ampliar a regra de transição de 18 meses para dois anos para quem consegue emprego formal ou abre negócio, com retorno automático se a renda cair. No modelo atual do governo Lula, a trava de retorno chega a 36 meses. Flávio Bolsonaro gravou vídeo no dia seguinte à repercussão da entrevista negando qualquer intenção de extinguir o programa e reforçando que a regra proposta dá mais tempo e mais segurança de retorno do que a vigente. A campanha de Lula recortou o áudio e o tratou como corte. A própria Daniella chamou de “campanha criminosa de fake news”.
No dia 20 de outubro, a imprensa divulgou trechos de um relatório da Polícia Federal que aponta possíveis vínculos entre Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz, investigado na Operação Sem Desconto. A PF registrou que Flávio figurava como “usuário master” da conta da Alcazar Holding, empresa de Willer, até maio de 2025; que houve pagamento para remoção de 12 links de notícias; movimentações elevadas; e que Willer foi o maior apostador do país em bets em 2025, com cerca de R$ 5 bilhões. Também foram citadas viagens de jatinho entre Portugal e França custeadas por empresas ligadas ao advogado.
Willer Tomaz e Flávio negam relação comercial ou financeira. A nota de Willer afirma que nunca dividiram conta bancária, que Flávio nunca foi usuário master, que a remoção de links foi ação judicial legítima contra o Google, que os valores são compatíveis com rendimentos declarados à Receita e que as viagens decorreram de amizade entre as famílias, sem contrapartida. A cifra de bets, segundo a defesa, soma reapostas. O inquérito é sigiloso. A imprensa teve acesso a trechos filtrados, não ao processo completo. O timing da divulgação — um domingo, a poucas horas de um debate — é o elemento que permanece sem explicação satisfatória para o eleitor.
Enquanto a campanha de Lula acusa Flávio de querer acabar com o SUS e as aposentadorias, a Operação Sem Desconto, deflagrada em abril de 2025 pela PF e pela CGU, apurou descontos associativos indevidos estimados em R$ 6,3 bilhões em aposentadorias e pensões entre 2019 e 2024. Até outubro de 2026, o governo havia devolvido R$ 3,6 bilhões a 5,1 milhões de segurados; ainda havia cerca de 1,6 milhão aguardando definição judicial. O esquema envolvia associações e sindicatos conveniados ao INSS, com autorizações falsificadas ou sem consentimento real.
O Sindnapi, sindicato que teve entre seus dirigentes José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão de Lula, arrecadou valores significativos no período e teve recursos bloqueados pela Justiça. O filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é alvo de três inquéritos no STF por suspeita de tráfico de influência. A lobista Roberta Luchsinger, amiga dele e também investigada, confirmou em depoimentos e entrevistas que o apresentou ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. Uma empresa dela recebeu R$ 1,5 milhão de uma consultoria ligada ao Careca. Fotos do inquérito mostram os dois em um jatinho. Roberta declarou publicamente que quer fazer delação premiada e que não poupará ninguém. A PF pediu prorrogação dos inquéritos. O MPF abriu procedimento para apurar se o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, vazou informação sigilosa relacionada ao Sindnapi. O ministro Flávio Dino suspendeu a quebra de sigilo de Lulinha aprovada pela CPMI. A comissão encerrou sem relatório final aprovado.
Lula critica Flávio por prometer o que não cabe no orçamento e por ameaçar programas sociais. O plano apresentado por Daniella Marques fala em cortar privilégios em Brasília — férias de 60 dias, supersalários, cargos comissionados, desperdícios e o buraco de estatais dependentes do Tesouro —, revisar o IOF e reduzir o custo-Brasil. O governo Lula, por sua vez, termina o mandato com o maior escândalo recente de descontos em benefícios de aposentados sob sua gestão, com o filho do presidente sob investigação por tráfico de influência ligado ao mesmo esquema, e com um pacote de promessas de campanha que o próprio Executivo reconhece depender de Congresso e de recursos futuros.
A pergunta que permanece é simples: quem está pedindo ao eleitor que acredite em promessas que não pode cumprir sozinho, enquanto o entorno de seu governo é investigado por descontos indevidos no benefício de quem mais precisa?