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O Nordeste não é o culpado

O mapa eleitoral não é um mapa moral: entender o voto nordestino exige olhar para a história, a desigualdade e a relação entre Estado, poder e cidadão.

Rodrigo Schirmer Magalhães
Por: Rodrigo Schirmer Magalhães
08/10/2026 às 14h10 Atualizada em 08/10/2026 às 15h06
O Nordeste não é o culpado
Imagem gerada por IA

Depois de toda eleição, o Brasil costuma fazer a mesma coisa: abre o mapa, olha as cores e procura um culpado.

É quase uma tradição nacional. De um lado, alguém aponta para o Sul; do outro, alguém aponta para o Nordeste. No meio, o Brasil inteiro, com suas contradições, seus santos, seus pecadores, seus salvadores da pátria e seus candidatos a salvador da pátria.

E então vem a frase, simples como um tiro de espingarda em noite de sertão:

“Foi o Nordeste.”

Como se o Nordeste fosse uma coisa só. Como se Bahia fosse Pernambuco, Pernambuco fosse Ceará, Ceará fosse Piauí, e todos eles, juntos, acordassem numa manhã qualquer para combinar o destino da República antes do café.

Mas o Brasil é mais complicado. Graças a Deus. E, às vezes, graças a Nossa Senhora e a São Jorge também, porque explicar o Brasil somente com ciência política talvez seja pedir demais até para a ciência política.

O Nordeste não nasceu de esquerda.

Essa talvez seja a primeira pedra que precisamos colocar no caminho antes que alguém tropece na própria simplificação.

Durante muito tempo, o Nordeste foi terra de coronel. Não o coronel de farda reluzente, espada na cintura e bigode de fotografia antiga, mas outro tipo de coronel: o homem da terra, da palavra e das relações. Era quem conhecia o prefeito, o delegado, o padre, o comerciante e, se fosse preciso, até o homem que vendia farinha na feira.

Sabia quem tinha trabalho, quem precisava de ajuda, quem estava doente, quem tinha filho para batizar e, principalmente, quem precisava lembrar que dependia dele.

Era um poder que não precisava gritar. Bastava existir.

Victor Nunes Leal explicou esse mundo em Coronelismo, Enxada e Voto. O coronelismo não era simplesmente a figura de um poderoso mandando nos pobres, mas um sistema inteiro de compromissos, favores e dependências que ligava o poder local às engrenagens da política nacional.

Era o Brasil do “deixa comigo”, do “eu conheço fulano”, do “se votar no homem, a gente dá um jeito”.

E havia pouca coisa mais perigosa para a liberdade do que precisar de alguém para sobreviver. O voto podia até ser secreto; a vida, muitas vezes, não era.


Mas o tempo passou. Vieram as estradas, a televisão, a antena parabólica, o celular e, por fim, a internet. Hoje, o sertanejo pode assistir, no mesmo aparelho em que manda uma mensagem para a filha, a um debate presidencial em Brasília, a uma pregação religiosa, ao discurso de um deputado e a um sujeito dançando forró no interior do Ceará.

O mundo entrou pela janela.

O coronel começou a perder espaço, mas a necessidade permaneceu. E, à medida que o velho poder local foi diminuindo, outro poder cresceu: o Estado.

Aqui começa uma das transformações mais importantes da política brasileira.

Durante décadas, aposentadorias rurais, benefícios, programas de transferência de renda, crédito, habitação e outras políticas públicas passaram a fazer parte da vida cotidiana de milhões de famílias.

Não é preciso transformar isso numa caricatura. Nem todo beneficiário vota em determinado partido, assim como nem todo programa social pode ser reduzido a compra de voto. Mas seria igualmente ingênuo acreditar que uma população que passa a depender, em alguma medida, da presença material do Estado não modifica sua percepção sobre a política.

Modifica, e profundamente.

O velho coronel dizia: “Eu resolvo”.

O Estado moderno passou a dizer: “Eu garanto”.

A linguagem é outra, as instituições são outras, mas a política continua disputando uma coisa muito antiga: a confiança daquele que precisa.

Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, enxergou uma das raízes dessa questão ao mostrar como, na formação brasileira, o Estado frequentemente se tornou espaço de apropriação e disputa por grupos que aprenderam a controlar suas engrenagens.

Talvez por isso o brasileiro tenha tanta dificuldade de separar governo de Estado, partido de governo, governante de benefício, favor de direito e direito de favor. Tudo se mistura; e, quando tudo se mistura, o voto também se mistura.


É nesse terreno que aparece Lula.

E aqui a história precisa ser contada sem paixão partidária, porque a paixão é boa para a campanha, mas costuma ser péssima para explicar a campanha.

Lula não inventou o voto nordestino, mas construiu, ao longo dos anos, uma das mais fortes identificações eleitorais entre uma liderança nacional e uma região específica da história política brasileira.

Em 2002, já venceu no Nordeste. Depois, essa relação se aprofundou. Em 2006, sua votação cresceu fortemente na região. Vieram 2010 e 2014 e, quando o país virou de cabeça para baixo em 2018, quando Jair Bolsonaro venceu nacionalmente e o mapa brasileiro pareceu partido ao meio, o Nordeste permaneceu majoritariamente com o PT.

Em 2022, a divisão tornou-se ainda mais nítida. O Brasil parecia dois países discutindo dentro da mesma urna: de um lado, uma parcela enorme do Sul, Sudeste e Centro-Oeste; de outro, o Nordeste.

Mas há uma coisa que todo cientista político deveria desconfiar: aquilo que parece eterno.

Na política, quase nada é.

Nem a hegemonia, nem a lealdade, nem o eleitorado.

E a eleição de 2026 começou a mostrar isso. A direita cresceu no Nordeste. Não tomou a região, mas avançou. Esse movimento talvez seja mais importante para compreender o futuro do que simplesmente olhar o mapa e repetir que o Nordeste continua sendo vermelho.

Eleitorado não tem dono.

Nem o PT é dono do Nordeste, nem a direita é dona do Sul. O eleitor não é patrimônio de partido; é cidadão. E cidadão muda.

Há ainda uma injustiça que precisamos corrigir: não existe “o nordestino”.

Existe uma multidão de brasileiros diferentes entre si. Há o homem do sertão e o morador da praia, o agricultor e o empresário, o trabalhador urbano e o comerciante da feira, o católico e o evangélico, o jovem conectado ao TikTok e o avô que ainda escuta rádio.

Há quem receba benefício e quem pague imposto; quem vote em Lula e quem vote em Bolsonaro; quem escolha outro candidato e quem não queira nenhum deles.

O Nordeste não é uma ideologia. É uma civilização dentro da civilização brasileira.

É seca e enchente, vaquejada e universidade, cangaço e literatura, Padre Cícero e Ariano, Luiz Gonzaga e João Cabral, feira livre e shopping center. É o sertanejo que enfrenta a estiagem e o jovem que trabalha remotamente para uma empresa de São Paulo. É atraso e modernidade convivendo na mesma rua, às vezes na mesma casa.

Talvez por isso seja tão difícil entendê-lo. E talvez seja exatamente por isso que seja tão fácil culpá-lo.


Celso Furtado percebeu uma coisa que deveria estar escrita na porta de qualquer debate sobre o Nordeste: a pobreza não é um defeito moral.

Ela tem história, economia, estrutura, geografia e política.

O Nordeste não ficou pobre porque o nordestino é incapaz. Assim como ninguém fica rico apenas porque nasceu inteligente.

A formação econômica brasileira produziu desigualdades profundas, e o Nordeste carregou algumas das mais pesadas.

Sérgio Buarque de Holanda procurou as raízes culturais desse Brasil. Gilberto Freyre entrou na casa, na família, na senzala, na cozinha e na intimidade da formação social brasileira. Victor Nunes Leal explicou o poder dos coronéis. Faoro investigou a relação entre Estado e poder. Celso Furtado procurou as raízes econômicas da desigualdade.

Cada um, à sua maneira, tentou decifrar um pedaço desse bicho estranho chamado Brasil.

E todos ajudam a compreender uma verdade simples:

o voto de hoje carrega o peso da história de ontem.


Por isso, quando alguém olha para o mapa eleitoral e diz que “o Nordeste estragou o Brasil”, está fazendo mais do que uma injustiça: está cometendo um erro de interpretação.

O Nordeste não decide sozinho uma eleição nacional, não vota sempre do mesmo modo e tampouco está condenado a repetir eternamente o comportamento eleitoral das últimas duas décadas. Aquilo que hoje parece uma característica permanente pode ser apenas uma fase de uma transformação histórica.

E ninguém entende um eleitorado chamando-o de ignorante.

É preciso perguntar por que ele vota assim, o que recebeu, o que perdeu, o que teme, o que espera, de quem se lembra, em quem confia e que experiência teve com o Estado e com o poder.

Que promessa chegou primeiro à sua porta?

É aí que a política deixa de ser torcida e começa a virar ciência.

Existe uma ironia bonita — e talvez amarga — nessa história.

Durante muito tempo, disseram que o nordestino obedecia ao coronel. Hoje, alguns dizem que ele obedece ao Estado.

A figura do poder mudou, assim como mudaram as ferramentas e as instituições, mas a pergunta continua de pé:

até que ponto existe liberdade política quando a sobrevivência depende de quem está no poder?

Essa pergunta não pertence à esquerda nem à direita. Pertence à liberdade. E é justamente por isso que incomoda.

Talvez o problema brasileiro nunca tenha sido o Nordeste, mas uma velha tradição nacional de transformar necessidade em poder.

Ontem, o favor vinha da casa-grande; depois, passou pelo gabinete do prefeito e pelo deputado; hoje pode vir de um programa de governo, de uma emenda parlamentar, de uma política pública, de uma máquina partidária ou de um algoritmo que decidiu qual discurso deveria aparecer na tela do celular.

O poder aprendeu novas linguagens, mas continua sabendo que a necessidade humana é uma moeda política poderosa.


E então chegamos àquela frase que sempre aparece depois da eleição:

“Foi culpa deles.”

Não.

Foi o Brasil.

Foi o país que votou, que escolheu, que produziu suas desigualdades, construiu seus coronéis, criou seus partidos, expandiu seu Estado e alimentou suas esperanças e seus ressentimentos.

O Nordeste apenas estava lá, com sua seca e sua chuva, sua fé e sua pobreza, sua riqueza e seus santos, seus coronéis mortos e seus novos coronéis vivos. Estava lá com suas contradições, como todo o Brasil.

Talvez seja hora de parar de olhar para o Nordeste como um culpado e começar a olhá-lo como um espelho.

Porque aquilo que enxergamos ali talvez não seja apenas o Nordeste. Seja nós mesmos.

Um país que trocou o coronel pelo Estado, o papel pelo algoritmo, o comício pela rede social e o antigo voto de cabresto por formas mais sofisticadas de influência. Um país que ainda confunde proteção com dependência, favor com direito, governo com Estado e política com salvação.

O sertão já mudou muitas vezes. O Brasil também.

Talvez a próxima grande mudança não venha de uma região contra outra, mas de uma maturidade política que atravesse o país inteiro: do Oiapoque ao Chuí, compreender que nenhum governo, nenhum partido, nenhum coronel e nenhuma ideologia deve ser dono da necessidade de um cidadão.

Quem precisa pode receber ajuda. Mas quem é livre precisa poder escolher.

E talvez essa seja a verdadeira batalha brasileira: não descobrir qual região é culpada pelo país que temos, mas compreender que país queremos ser.

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Cientista político pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci (Uniasselvi) e um dos fundadores do canal GUERRA da INFORMAÇĀO.
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