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ELES ARRUINARAM O JUDICIÁRIO BRASILEIRO

Nós ficamos assistindo. E só assistindo.

Hermínio Naddeo
Por: Hermínio Naddeo Fonte: Opinião
17/09/2026 às 13h23
ELES ARRUINARAM O JUDICIÁRIO BRASILEIRO
Imagem IA

Seja qual for o noticiário, na TV, no rádio, no jornal, na revista, no YouTube ou nas redes sociais, até nas conversas das pessoas pelas ruas, no ônibus, no trabalho, no boteco, no elevador, tudo o que estamos lendo, vendo e ouvindo diz respeito ao que aconteceu na sessão do STF na última terça-feira, 15 de setembro de 2026. E pergunto: qual é a novidade? Por que tanto espanto? Que raio de indignação é essa, que só corrói o fígado de quem sente, que não se apresenta além de palavras, quase sempre apenas por escrito, e eventualmente — e muito eventualmente — ecoadas em manifestações que precisam ser convocadas para que as pessoas se motivem a gritar o que sentem por algumas horas e depois voltem para casa como se nada tivesse acontecido?

Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin fizeram exatamente o que se esperava que eles fizessem. Ou alguém acreditou que algum deles, num ataque de consciência, iria apoiar uma investigação contra Alexandre de Moraes? Édson Fachin, Cármen Lúcia, André Mendonça e Luiz Fux fizeram o que nós esperávamos que eles fizessem — inclusive com certa surpresa quanto à Cármen Lúcia. Até Dias Toffoli fez o que esperávamos que ele fizesse. O verdadeiro ponto fora da curva, numa atitude covarde, omissa e, por que não, irresponsável, foi Kassio Nunes Marques, cuja esdrúxula declaração de impedimento deixou claro que o motivo tem muito mais a ver com Daniel Vorcaro do que com as eleições.

E NÓS, POPULAÇÃO, FIZEMOS O QUE SE ESPERAVA QUE FIZÉSSEMOS?

A resposta é um sonoro NÃO. E, desde a redemocratização do Brasil, em 1985, nunca fizemos. São 41 anos de escândalos, assaltos bilionários ao dinheiro do pagador de impostos, praticamente sempre envolvendo os mesmos partidos, os mesmos personagens, os mesmos métodos, e nunca fizemos nada significativo partindo do povo para mudar isso. Os mesmos partidos e personagens continuaram a ser reeleitos, praticando os mesmos métodos, nos assaltando ciclo após ciclo, em volumes de dinheiro cada vez maiores. E permanecemos assistindo.

Bandidos comuns matam para roubar celulares e “comprar” cervejinha, enquanto os de colarinho branco matam o povo de fome, de falta de assistência médica, e roubam logo o sistema de telefonia do país para comprar cervejarias. Outros bandidos assaltam postos de gasolina, enquanto os de colarinho branco assaltam logo a Petrobras. Batedores de carteira roubam e até matam aposentados em saidinhas de banco atrás de mixaria; os de colarinho branco roubam logo o sistema da Previdência Social, matando pessoas sem precisar puxar o gatilho. E, nesses casos, não apenas assistimos a tudo passivamente, como somos roubados e mortos também passivamente.

SOMOS NÓS QUE COMETEMOS O PIOR CRIME CONTRA NÓS MESMOS

De 1985 a 2014, nossos heróis nacionais se resumiam a jogadores de futebol, jogadores de vôlei e pilotos de Fórmula 1. Quando Ayrton Senna morreu, o Brasil ficou órfão de um herói que despertasse tamanho patriotismo no nosso povo. Até mesmo a vitória na Copa de 1994, nos pênaltis, jogando feio, pouco depois da morte dele, não teve o impacto de outrora. Veio o pentacampeonato em 2002, mas já não tinha tanta graça. A partir dali, fomos eleger outro herói nos idos de 2014, 2015: o juiz Sérgio Moro, hoje senador e candidato ao governo do Paraná.

Eis que a Lava Jato começa a ser combatida e surge, então, Jair Bolsonaro, um quase mártir que foi eleito presidente em 2018 e virou o herói que salvaria a nação. Também não deu certo. Pior. Virou o culpado de coisas que nunca aconteceram e está em prisão domiciliar. E, como contraponto, Lula, condenado por unanimidade em três instâncias da Justiça, foi tirado da cadeia pelo Judiciário e ocupa a cadeira da Presidência da República. Ficamos sem heróis, à mercê e morrendo de medo dos vilões, os mesmos que soltaram e reelegeram Lula e prenderam Bolsonaro. É assim que vivemos desde 2022, com medo, sem nos darmos conta do que representa a voz de milhões de pessoas, da força que isso tem demonstrado espontaneamente, insistentemente, patrioticamente. Mas não fizemos.

Aparece, então, André Mendonça apresentando o batom na cueca do vilão ao vivo e a cores para o Brasil e para o mundo. Viva Mendonça. Temos um novo nome para chamar de herói. “Vai, Mendonça!” “Prende ele, Mendonça!” “Acaba com eles, Mendonça!” “Nós te apoiamos!” “O Brasil está com você, Mendonça!” Não deu certo. “O Mendonça não falou aquilo sobre aquela coisa, o Fux não mostrou aquele negócio que desmontaria tudo, o Fachin foi bundão e foi engolido pela turma ruim, a Cármen Lúcia pediu desculpa, mas ficou caladinha a sessão inteira, o covarde do Nunes Marques correu da sessão igual maricas, cedeu à chantagem que recebeu. E agora o Mendonça que vai ser julgado. Vai acabar se ferrando.” E esse é o tipo e o tamanho de apoio que ele tem do povo.

ELEGEMOS HERÓIS E DEIXAMOS QUE SE VIREM COM OS VILÕES

Era assim com nossa seleção de futebol: heróis na vitória, fracassados sem ela. Era assim com pilotos de Fórmula 1: ficávamos eufóricos com as qualidades nas vitórias, mas sempre prontos para apontar os defeitos nas derrotas. Raramente fomos capazes de reconhecer a supremacia dos adversários quando perdíamos, mesmo que suas vitórias fossem conquistadas na base da trapaça, da sacanagem, como aconteceu com nossa seleção na Copa da Argentina, em 1978; como aconteceu com Senna quando Prost bateu nele; com Rubens Barrichello e Felipe Massa, quando a Ferrari os mandava deixar passar. E foi assim com Sérgio Moro, com Jair Bolsonaro e está sendo com André Mendonça. Sempre estiveram sozinhos quando sacaneados, criticados na derrota.

Se for escrever todos os exemplos que tenho na cabeça, esse texto vira livro. Mas é impossível não lembrar de Daniel Silveira, Carla Zambelli, Filipe Martins, Roberto Jefferson, General Heleno, General Braga Netto, os milhares de presos do 8 de janeiro, representados aqui nas figuras do Clezão e da Débora do batom, de Allan dos Santos, de Rodrigo Constantino, de Flávia Magalhães, de Alexandre Ramagem, de Eduardo Tagliaferro e outros tantos exilados anônimos que sempre estiveram sozinhos em seus calvários, e de Jair Bolsonaro, pelo qual o Brasil pararia se fosse preso. E não parou. Por nenhum deles. E não irá parar por André Mendonça.

Independentemente do que cada um pense a respeito de cada um desses nomes, gostem deles ou não, foram, todos, vítimas dos vilões que NÓS, povo brasileiro, nunca combatemos. E, omissos que somos, continuamos financiando, com o dinheiro dos nossos impostos, trabalhando cinco meses do ano apenas para pagar lagostas, vinhos importados, viagens internacionais para degustação de whisky, hospedagem cinco estrelas para pessoas deslumbradas, carros blindados, verdadeiros exércitos de seguranças, jatinhos... Até o papel higiênico que usam nos gabinetes — como se nos esfregassem o suor do nosso trabalho em suas partes íntimas para limpar as merdas que fazem.

ELES DESTRUÍRAM O BRASIL. NÓS FICAMOS ASSISTINDO. SÓ ASSISTINDO.

E parece que isso não vai mudar. Engana-se quem acredita que uma eleição resolve, que um novo herói resolve.

 

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Hermínio Naddeo
Hermínio Naddeo
Escritor/Jornalista, mestrado em palpitologia, doutorado em opinologia, pós-doutorado em falastronismo.

Administrador, publicitário, jornalista, com quase duas décadas de atuação na cobertura política e análise de conjuntura nacional. Especializado em leitura estratégica de cenários, mantém uma linha editorial independente e de viés conservador, com foco em liberdade, soberania e responsabilidade institucional. É colunista do site No Ponto do Fato, onde assina artigos que aliam crítica firme, ironia pontual e compromisso com a verdade. Registro profissional MT 22619/MG.
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