
Você consegue imaginar fazer uma longa viagem, dirigindo um carro com toda a sua família, sem o painel de instrumentos e sem GPS?
Seria possível dirigir? Talvez. Mas como saberíamos a velocidade, o nível de combustível, a temperatura do motor ou se estamos seguindo o caminho correto? Sem essas informações, cada decisão seria tomada praticamente no escuro, aumentando significativamente o risco de cometer erros.
No dia a dia, quando dirigimos um automóvel, confiamos que as informações apresentadas no painel sejam precisas e estejam disponíveis no momento certo. São elas que nos permitem tomar decisões a cada instante.
Mas por que, em tantas empresas, isso não acontece?
Quem decide abrir uma empresa normalmente conhece muito bem o seu produto, o seu serviço ou a atividade que pretende desenvolver. Conhece o mercado, os clientes e, muitas vezes, domina tecnicamente aquilo que faz. O problema é que conhecer profundamente a atividade não significa, necessariamente, saber administrar uma empresa.
É nesse ponto que começam muitas das dificuldades.
Plano de contas, fluxo de caixa, DRE, faturamento, regime de caixa, regime de competência, custos, estoques e indicadores de desempenho — os chamados KPIs — podem, à primeira vista, parecer assuntos complexos e restritos aos profissionais de contabilidade ou finanças.
Na realidade, são instrumentos fundamentais para qualquer empresário que queira tomar decisões com segurança.
Uma empresa precisa saber quanto vende, quanto recebe, quanto deve, quanto tem disponível em caixa, quanto custa sua operação, quais produtos ou serviços são realmente lucrativos e, principalmente, para onde está caminhando.
Os indicadores de desempenho são o painel de instrumentos da empresa.
Assim como não deveríamos dirigir um carro sem saber sua velocidade ou quanto combustível ainda resta no tanque, também não deveríamos administrar uma empresa sem conhecer seus principais números.
O problema é que muitas micro, pequenas e até médias empresas não possuem rotinas estruturadas, processos definidos e treinamento adequado para realizar de forma eficiente o controle financeiro, a gestão de custos, os estoques e o acompanhamento dos resultados.
Em muitos casos, o empresário somente percebe a gravidade da situação quando o caixa começa a faltar.
E quando isso acontece, frequentemente o problema já não está apenas no caixa. Pode estar nos preços praticados, nos custos, no estoque, no prazo e nos descontos concedidos aos clientes, nas despesas operacionais, no endividamento ou simplesmente na ausência de controles que permitissem identificar o problema com antecedência.
Os números oficiais ajudam a dimensionar a importância dessa questão. Segundo dados do IBGE, uma parcela significativa das empresas brasileiras não consegue chegar aos primeiros anos de atividade. Aproximadamente 24% não chegam ao segundo ano, cerca de metade não chega ao terceiro e aproximadamente 63% não chegam ao quinto ano.
Em períodos de juros elevados, inflação, redução do consumo ou outras condições macroeconômicas adversas, os desafios tornam-se ainda maiores. Entretanto, nem sempre o problema está apenas no ambiente externo. Muitas empresas tornam-se mais vulneráveis porque não possuem informações gerenciais confiáveis para reagir rapidamente às mudanças.
Esperar o caixa chegar ao limite para procurar ajuda é como perceber que o carro está ficando sem combustível somente quando o motor começa a falhar.
Gestão não deve ser uma medida de emergência. Deve ser uma prática permanente.
Uma empresa bem administrada não precisa ter centenas de indicadores ou sistemas sofisticados. Precisa, antes de tudo, saber quais informações são realmente importantes, estabelecer processos para obtê-las e transformá-las em conhecimento para a tomada de decisão.
O empresário não precisa ser contador, economista ou especialista em finanças. Mas precisa conhecer os números essenciais do seu negócio e compreender o que eles estão dizendo.
Porque uma empresa sem controles é como um carro sem painel: continua andando, mas ninguém sabe exatamente a que velocidade, quanto combustível ainda existe ou quanto falta para chegar ao destino.
E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes que todo empresário deveria fazer a si mesmo: se hoje eu tivesse que tomar uma decisão importante sobre a minha empresa, eu teria informações confiáveis para decidir — ou estaria simplesmente dirigindo no escuro?