
Em 1993, trabalhei como gerente de marketing de uma empresa de assistência médica, cujo dono era o falecido Dr. Afonso Alvarez Perez, médico ginecologista, com quem aprendi muita coisa. Dois momentos em que estava com ele me marcaram bastante. Um delas uma anedota, que diz muito sobre o Brasil. O outro um fato real que diz muito sobre empresários e também sobre o próprio Brasil.
A anedota conta a história de um médico que se formou e foi para o interior, onde fez a vida e fundou uma clínica. Ganhou muito dinheiro, virou fazendeiro e, quando se aposentou, passou a clínica para o filho que também se formou em medicina. Em um fim de semana, seu filho foi à fazenda visitar o pai, onde travaram o seguinte diálogo:
- Pai, o senhor se lembra da Dona Etelvina, que tinha aquela ferida na perna?
No que o pai respondeu:
- Claro que lembro, cuidei dela por anos!
O filho, todo orgulhoso, disse então ao pai:
- Curei a perna dela, pai!
E respondeu o pai:
- Você é burro?
Espantado com a resposta, o filho retrucou:
- Burro? Por que burro?
E disse o pai:
Como você acha que paguei sua faculdade? Curando as pessoas?
Já o fato foi o seguinte. Estava na sala conversando com Dr. Afonso quando o financeiro, todo feliz, bateu levemente na porta, abriu e, apenas enfiando a cabeça para dentro da sala, disse:
- Dr. Afonso, o problema da Dona Joana está resolvido!
No que respondeu o Dr. Afonso!
- Graças a Deus!
Eu, muito curioso e interessado em entender a dinâmica do negócio, perguntei:
- Qual era o caso da Dona Joana?
Muito calmamente, acendendo um cigarro Charm e se recostando na cadeira como quem está aliviado, Dr. Afonso me contou:
- Dona Joana já estava há quase 50 dias na UTI cardíaca do hospital Felício Roxo ao custo de 1.000 dólares por dia.
Inocente de tudo, perguntei:
- E então ela saiu da UTI?
Ele, verbalizando todo o alívio que sentia, disse:
Não! Graças a Deus, ela morreu. Imagina se sai e tem outro infarto e tem que voltar para a UTI?
A anedota mostra o Brasil em que vivemos. Ninguém trata da causa dos problemas, nem a presidência da república, nem o Congresso Nacional, nem a justiça, muito menos as entidades de classe, o empresariado ou a tal sociedade civil organizada. Está bom como está. E quando aparece um Bolsonaro que resolve algumas coisas e tem propostas concretas para resolver outras tantas, além de ser chamado de burro, é preso por crimes que não cometeu.
E a segunda situação, real, deixa claro que o grande empresariado prefere que os problemas sejam resolvidos de maneira que não precisem cumprir com a finalidade dos seus negócios para ganhar dinheiro. Que fiquem eternamente doentes as Dona Etelvinas e morram as Donas Joanas.
O Brasil é um doente em estado grave, que não deixam ser curado, mas também não deixam morrer, precisa estar vivo para que essa quadrilha continue roubando o dinheiro dos pagadores de impostos sem precisar fazer mais do que tratar os sintomas do doente.
Quem pensa em drogas quando fala em crime organizado, não entende de fato o que é o crime organizado. No nosso país, o tráfico de drogas e de armas continua sendo grave, mas não é mais a principal fonte de renda dos traficantes, ou pelo menos não a única que dá muito dinheiro. O poder do crime organizado hoje está na política, no judiciário, nos legislativos federal, estaduais e municipais, no sistema bancário. E todo mundo sabe disso. O empresariado sabe disso. A sociedade civil organizada sabe disso. As entidades de classe sabem disso. Mas ninguém vai fazer nada, porque todos estão ganhando dinheiro com isso.
A pior parte, porém, está na população, de todas as classes sociais, incapaz de reagir aos acontecimentos à altura da gravidade que eles apresentam. As classes mais baixas, dependentes das esmolas do governo, talvez em sua maioria, não têm formação e informação suficiente para enxergar além da espuma da superfície. A classe média, promotora de tantas transformações na história da humanidade, tem medo de agir/reagir e perder seus poucos privilégios. A classe alta está ganhando dinheiro e poucos são os que querem alguma mudança, mas não farão nada para que ela aconteça.
Já nós, que conseguimos enxergar as coisas com alguma profundidade, somos diariamente alvejados por notícias requentadas, como o inquérito das fake news que já dura mais de 7 anos, o roubo do INSS que já vai para 2 anos, o caso Banco Master que não anda nem para frente nem para trás, e outras tantas notícias que não revelam nenhum progresso sobre seus andamentos. E não é apenas a grande imprensa que vive disso. Youtubers de direita também vivem e ganham dinheiro requentando notícias, esticando fatos com lives e vídeos de mais de meia hora, que não acrescentam nada e só criam expectativas para que no dia seguinte as pessoas estejam lá novamente para garantir os likes e o dinheiro que o Youtube lhes paga – que não é pouco.
Penso que talvez este Brasil doente precise acabar morrendo para que de fato se instale um clima de velório que gere comoção e reação da população brasileira, que nos faça buscar a cura ao invés de ficar satisfeita com os tratamentos paliativos que garantem o pagamento de muito luxo para pouca gente e a miséria para uma grande maioria.
X - @nopontodofato
Instagram - @nopontodofato
Facebook – @nopontodofato
Spotify - No Ponto do Fato
LinkedIn - No Ponto do Fato
Tik Tok - @nopontodofato_