
Antes que alguém leia apenas o título e conclua o que não escrevi, faço um esclarecimento indispensável: não estou dizendo que Luiz Inácio Lula da Silva fez a Seleção Brasileira perder seis Copas do Mundo. Não existe relação de causa e efeito entre uma coisa e outra. O que existe é uma coincidência histórica que atravessa quase um quarto de século. E coincidências, quando persistem por tanto tempo, às vezes ajudam a contar uma história.
Em 2002, o Brasil conquistou o pentacampeonato mundial. No mesmo ano, Lula foi eleito presidente da República, prometendo transformar o país em uma potência mundial, reduzir desigualdades e inaugurar um novo tempo. A esperança estava por toda parte. Dentro de campo, éramos os reis do futebol. Fora dele, acreditávamos que o Brasil encontraria finalmente o caminho do futuro.
Passaram-se vinte e quatro anos. Disputamos seis Copas do Mundo e fomos eliminados nas seis. O hexa não veio.
Nesse mesmo período, o país também passou por um longo ciclo de transformações. Crescimento econômico, recessão, escândalos de corrupção, impeachment, polarização política, crises institucionais, promessas de reconstrução, mudanças de governo e a permanente sensação de que a grande virada estava sempre marcada para o próximo mandato.
É justamente aqui que o paralelo começa. Não porque um tenha provocado o outro. Mas, porque o futebol nunca existiu separado do país que o produz.
Nenhuma seleção nacional vive isolada da realidade econômica, institucional e cultural da sua nação. Ela depende de clubes fortes, de campeonatos competitivos, de patrocinadores confiantes, de dirigentes competentes, de credibilidade institucional e de uma torcida que se reconheça naquela camisa.
Quando um país muda, seu futebol muda junto.
O Brasil continua produzindo alguns dos melhores jogadores do planeta. Vinícius Júnior, Rodrygo, Raphinha, Alisson, Marquinhos e tantos outros brilham nos maiores clubes da Europa. Nunca faltou talento.
Em 1994, onze convocados atuavam em clubes brasileiros. Em 2002, eram treze. Em 2022, restavam apenas dois. Os nossos maiores talentos deixam o país cada vez mais cedo. Crescem sonhando com a Champions League muito antes de sonharem com o Campeonato Brasileiro. Não porque lhes falte patriotismo, mas porque encontram fora daqui aquilo que o futebol brasileiro não consegue oferecer: estabilidade, estrutura, remuneração, previsibilidade e competitividade.
Essa é uma pergunta que vai muito além do futebol.
Por que o maior exportador de jogadores do mundo não consegue mantê-los em casa?
Por que os clubes europeus atraem investimentos bilionários enquanto nossos clubes ainda lutam por receitas muito menores?
Por que os contratos internacionais de televisão valem tantas vezes mais que os brasileiros?
Quanto dessa diferença tem relação apenas com futebol e quanto tem relação com economia, ambiente de negócios, segurança jurídica, confiança dos investidores e capacidade de gestão?
Essas perguntas não dizem respeito apenas à bola. Dizem respeito ao Brasil.
A própria CBF também passou a refletir essa realidade. Nunca arrecadou tanto. Nunca assinou tantos contratos comerciais. Nunca transformou tanto a Seleção em uma marca global.
Mas será que também nunca esteve tão distante da torcida?
Enquanto patrocinadores faturam, emissoras disputam direitos de transmissão e jogadores estrelam campanhas publicitárias milionárias, o torcedor continua esperando exatamente aquilo que realmente lhe importa: o hexa.
Dentro de campo, repetimos fórmulas. Parreira voltou. Felipão voltou. Dunga voltou. Técnicos diferentes, discursos diferentes, resultados parecidos.
Na política, muitas vezes assistimos ao mesmo fenômeno. Mudam governos, partidos e ministros. Permanecem estruturas, práticas e a sensação de que as mudanças nunca chegam à raiz dos problemas.
Presidentes da CBF entram e saem. Ricardo Teixeira e José Maria Marin foram banidos do futebol por corrupção. Disputas judiciais se sucedem. O modelo de eleição continua concentrado nas federações estaduais. A estrutura muda pouco. A cobrança do torcedor permanece a mesma.
Talvez a maior coincidência entre o Brasil e sua Seleção seja justamente essa dificuldade de promover reformas profundas.
Preferimos trocar pessoas a transformar instituições. Preferimos anunciar novos projetos a corrigir velhos defeitos. Preferimos acreditar que o próximo ciclo resolverá aquilo que o anterior deixou para trás.
É por isso que o título deste artigo menciona Lula.
Não porque sua eleição tenha feito o Brasil perder Copas do Mundo.
Mas, porque ela acabou marcando, por coincidência, o início de um período em que país e Seleção passaram a caminhar lado a lado em muitos aspectos: crises de confiança, dificuldade de planejamento, escândalos, repetição de protagonistas e promessas constantes de que "da próxima vez será diferente".
A camisa amarela já foi o maior símbolo de união nacional. Hoje, ela divide opiniões. Talvez porque a Seleção tenha deixado de ser apenas um time de futebol.
Um país extraordinariamente rico em talentos, mas que há muito tempo encontra enorme dificuldade para transformar seu potencial em resultados proporcionais àquilo que promete.
Espero sinceramente que este artigo envelheça mal.
Espero que em 2030 estejamos comemorando o hexa de verdade e rindo desta coincidência histórica.
Mas, até lá, continuaremos convivendo com um fato impossível de ignorar: desde 2002, o Brasil ainda procura reencontrar, tanto na política quanto no futebol, o caminho das grandes vitórias.
Compartilhe para que este artigo chegue a mais pessoas.
Deixe seu comentário! Sua participação e sua opinião são importantes para nós!
X - @nopontodofato
Instagram - @nopontodofato
Facebook – @nopontodofato
Spotify - No Ponto do Fato
LinkedIn - No Ponto do Fato
Tik Tok - @nopontodofato_