
Há uma máxima imutável na história: nenhum regime se sustenta sem um aparato militar que o garanta. Alexandre, o Grande, Gengis Khan, Napoleão, Hitler, Mao, Fidel Castro, Pol Pot, Saddam Hussein, Gaddafi, Idi Amin, Putin, Ortega, Maduro e os aiatolás — nenhum deles teria conquistado ou dominado territórios apenas com discursos. Ninguém entrega liberdade e soberania só por estar "encantado" com palavras; é preciso força.
Em 1964, os militares derrubaram o governo civil sob o pretexto de evitar um golpe comunista — que nunca se soube se realmente aconteceria, por mais evidências que houvesse. O discurso era "salvar a democracia". Para isso, criou-se a Lei de Segurança Nacional, usada para perseguir a oposição de esquerda.
Com a redemocratização em 1985, a LSN foi extinta, mas seus artigos migraram para o Código de Processo Penal. Hoje, partindo da premissa de uma "iminente tentativa de golpe" — para a qual nunca se apresentou evidência mínima —, o ministro Alexandre de Moraes passou a usar esses mesmos dispositivos.
Golpe de Estado é a tomada ilegal e violenta do poder por grupos das próprias estruturas estatais, sem processo eleitoral. Uma tentativa pressupõe: execução iniciada (mobilização de tropas, invasão de sedes de poder, prisão de autoridades), fracasso operacional por resistência institucional e manutenção da ordem constitucional com posterior responsabilização.
O único ato usado pelo STF para caracterizar essa tentativa foi a invasão da sede dos Três Poderes por populares — muitos deles, segundo relatos, infiltrados que armaram a cilada para os demais. A cena reproduziu a invasão do Capitólio nos EUA, cuja culpa recaiu sobre Trump; aqui, recaiu sobre Bolsonaro, que nem estava no Brasil. A partir disso, construiu-se uma narrativa que sustentou a condenação de Bolsonaro, generais e outros — baseada fortemente na delação de Mauro Cid, que teve ao menos nove versões diferentes.
Nas Forças Armadas, especialmente no Exército, muitos generais e coronéis relutavam em bater continência para um capitão da reserva tão controverso. Obedeciam, mas contrariados. E é justamente aqui que está a chave de tudo: essa mesma cúpula jamais daria apoio a um golpe de Bolsonaro — mas também jamais se manifestaria, e não se manifestou, contra as ilegalidades que o STF passou a praticar.
Em resumo: em troca de benesses, a cúpula militar preferiu voltar a bater continência para bandidos do que continuar batendo para um capitão da reserva. Terceirizaram ao STF a ditadura que não tinham mais coragem de implantar com as próprias mãos. Sem tanques nas ruas, sem generais no poder, transferiram a um tribunal a função histórica que sempre foi das Forças Armadas: garantir, pela força e pelo medo, um poder que não se sustenta pela adesão popular nem pelo voto.
O que vemos desde 2022 repete sistematicamente o que os militares fizeram entre 1964 e 1985, só que com outro executor. É impossível que não haja quem garanta essas ações diante de tantas inconstitucionalidades — e essa garantia é exatamente o silêncio da cúpula militar, que finge que nada é com ela.
Censura: mesmo a ministra Cármen Lúcia, que declarou "o cala boca já morreu" no julgamento do mensalão, votou pela censura prévia de um documentário da Brasil Paralelo nas eleições de 2022 — impedindo sua exibição sem nem sequer conhecer o conteúdo. Milhares de brasileiros foram proibidos de se manifestar em redes sociais, intimados a depor ou processados por opiniões em ambientes privados – até por conversas de WhatsApp.
Exilados políticos: diversos países negaram extradições, reconhecendo perseguição política. Quando há crime, a extradição é natural; ter opinião não é crime, e a liberdade de expressão — garantida pelo artigo 5º da Constituição — deixou de ser respeitada. A imunidade parlamentar, atacada tanto pelo regime militar quanto agora pelo STF, é outro exemplo da relativização das garantias fundamentais da Constituição de 1988.
Inquéritos intermináveis: nunca avançam à fase processual, mas justificam medidas cautelares — busca e apreensão, bloqueio de contas, prisões preventivas e domiciliares, tornozeleira eletrônica e bloqueio de redes sociais, que não existiam naquela época. O modo de agir é o mesmo usado contra militantes de esquerda na ditadura, agora com ferramentas tecnológicas e sem precisar de um único soldado nas ruas.
Repressão sem tanques: a Polícia Federal cumpre hoje o papel que a Polícia do Exército exercia então. Não há tortura física (direta) conhecida, mas manter presas pessoas sem crime que necessitam de cuidados de saúde não deixa de ser tortura física. Já a tortura psicológica é diária. As Forças Armadas não precisam agir: o STF age por elas.
O resultado é que as Forças Armadas abandonaram até mesmo o papel de vigiar o próprio povo diretamente: bastou fechar os olhos e deixar que outro poder fizesse o trabalho sujo. É esse o silêncio cúmplice de uma ditadura terceirizada — não imposta por generais, mas validada pelo silêncio deles.
X - @nopontodofato
Instagram - @nopontodofato
Facebook – @nopontodofato
Spotify - No Ponto do Fato
LinkedIn - No Ponto do Fato
Tik Tok - @nopontodofato_