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A REPÚBLICA ACABOU!

O Brasil precisa buscar o caminho do municipalismo

Hermínio Naddeo
Por: Hermínio Naddeo Fonte: Opinião
09/03/2026 às 09h37
A REPÚBLICA ACABOU!
Imagem IA

Muitas vezes eu gostaria de ser completamente ignorante, ficar feliz em poder tomar cerveja, torcer pelo meu time, agradecer pelo subemprego que paga parte das contas e pelos bicos que completam a renda. Seria mais feliz se não soubesse direito quem é Alexandre de Moraes e o que faz um ministro do STF. Mais feliz ainda se não soubesse quem são os personagens da política e o que fizeram nos verões passados. Só que Deus não me deu esse privilégio.

No tempo em que eu apenas não confiava na justiça, a vida era muito mais simples do que depois que passei a desconfiar dela. A falta de confiança alimenta a dúvida, a desconfiança alimenta a certeza, dois itens do cardápio que atacam o fígado com as lagostas e vinhos importados que eles bebem. O Bolsa Família não me serve como Engov, a Rouanet não me financia para fazer vista grossa, o crédito consignado não parcela minha indignação.

QUANDO A DESCONFIANÇA VIRA CERTEZA

Diz o ditado que o que não começa bem não termina bem. Por este princípio, o destino da nossa República não poderia ser diferente. Ao contrário de golpes que depõem governos e mudam regimes, ela acabou de dentro para fora, pelas mãos e nove dedos dos três poderes que só existem pela configuração de uma República que permitiu que todos chegassem aos cargos que chegaram com promessas de um país do futuro que, com o tempo, ficou cada vez mais com cara de passado.

Não faço a menor ideia de como vamos sair dessa. Acho que ninguém sabe. Há tempos - e esse “tempos” deve equivaler a uns 10 anos - digo que não existe saída institucional para o Brasil com os personagens do judiciário e da política que temos. É impossível crer que do judiciário, do executivo e do legislativo possa surgir uma saída institucional que prenda corruptos, afaste maus servidores e promova uma reforma constitucional. As pessoas no comando destas instituições não somente protegem corruptos, como estão entre eles.

O SISTEMA QUE PROTEGE A SI MESMO

O pacto federativo brasileiro já não serve mais para organizar um país do tamanho do Brasil. O pacto fiscal, muito menos. É impossível gerenciar um país de tamanho continental com centralização de arrecadação. Se já era difícil para estados e municípios promoverem desenvolvimento administrando diretamente as arrecadações estaduais e municipais, com a reforma administrativa isso se torna impraticável. Se antes era a raposa invadindo o galinheiro, agora passamos a enviar todas as galinhas para a raposa cuidar na sua toca.

A gente costuma culpar o povo por não saber votar, mas isso é só parte da verdade. A maneira como a Constituição Federal regulamenta partidos, aliada ao sistema eleitoral que elege quem não teve votos para ser eleito, impossibilita que tenhamos uma república de verdade. Menos ainda uma democracia de verdade. Partidos têm donos e são eles quem definem os candidatos que teremos à disposição para escolher. No caso dos legislativos, o sistema eleitoral é que decide quem será eleito.

Só nos casos de eleições majoritárias, presidente, senadores, governadores e prefeitos é que a responsabilidade da escolha recai sobre a escolha do eleitor – mas, novamente, diante dos candidatos que os partidos escolheram. É esse absurdo que acaba nos levando a escolher o “menos pior”, o que depende do critério individual do eleitor de quem, na visão dele, seria o menos pior. Entra aí a nefasta participação da imprensa quando, durante anos, vai criando a imagem de quem é melhor ou pior na cabeça do eleitor. E essa armadilha psicológica funciona.

A república brasileira precisa ser refundada. O país precisa expurgar personagens cuja trajetória política serviu para seus próprios enriquecimentos e de grupos aos quais pertencem, sem que nada tenham verdadeiramente feito pela nação. São milhares de políticos que se reelegem apesar de seus históricos de envolvimentos com ilícitos ou, no mínimo, processos que nunca são julgados, ou são meramente arquivados sem investigação.

NÃO PRECISAMOS DE REFORMAS. PRECISAMOS DE UM RECOMEÇO

O Brasil precisa buscar o caminho do municipalismo, adotado nos países mais desenvolvidos do planeta, quando tanto a arrecadação quanto as responsabilidades pela aplicação da mesma ficam a cargo dos municípios, repassando aos estados e à União apenas o necessário para cuidarem do que é macro no desenvolvimento do país. Estados e municípios precisam ter autonomia para administrar e investir as arrecadações de acordo com as necessidades de seus limites geográficos.

Quando estados e municípios ganham autonomia para criar suas próprias leis, o judiciário federal perde protagonismo, se restringindo a guardar a Constituição Federal, respeitando as constituições estaduais e municipais no que é direito de ambas. É assim que funciona na maioria dos países da Europa, nos Estados Unidos, no Canadá. Mas não apenas porque é assim nestes países. É porque este sistema funciona e permite a promoção dos desenvolvimentos locais.

Não foi a República que envelheceu, ou o regime presidencialista. O que envelheceu, e muito mal, foram as instituições, aparelhadas ao longo dos anos, ideologizadas e que se permitiram ser controladas por interesses que não são os interesses do país e da população brasileira. Envelheceram os personagens da política que estenderam seus tentáculos em todos os escalões da república e passaram a controlar tudo o que diz respeito à vida dos brasileiros, ignorando solenemente suas vontades e necessidades.

Infelizmente, não sou ignorante, e desde 2019 ficou claro que uma enorme parcela da população brasileira também não é. Não gosto de cerveja e não dedico mais tempo a torcer pelo meu time de futebol. Tenho 62 anos e, com esta idade, já não há fartura nem de subempregos e bicos para gerar renda. O pior de tudo, sei muito bem quem é Alexandre de Moraes, o que fazem e deveriam fazer ministros do Supremo Tribunal Federal, além de saber também o que eles fizeram nos verões passados.

Na verdade, não precisamos de uma nova república, mas de uma coisa que nunca tivemos desde o golpe de 1889 dado pelo Marechal Deodoro da Fonseca: precisamos de uma república de verdade, o que nunca tivemos. O caso do Banco Master é a prova concreta dessa realidade.

 

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Fátima Há 5 meses BH/MGMuito bom ter o privilégio de ler seus artigos, caro amigo! Eles sempre estimulam boas reflexões. Parabéns!
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Hermínio Naddeo
Hermínio Naddeo
Escritor/Jornalista, mestrado em palpitologia, doutorado em opinologia, pós-doutorado em falastronismo.

Administrador, publicitário, jornalista, com quase duas décadas de atuação na cobertura política e análise de conjuntura nacional. Especializado em leitura estratégica de cenários, mantém uma linha editorial independente e de viés conservador, com foco em liberdade, soberania e responsabilidade institucional. É colunista do site No Ponto do Fato, onde assina artigos que aliam crítica firme, ironia pontual e compromisso com a verdade. Registro profissional MT 22619/MG.
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